Vladimir Cavalcante

BARCELONA: O JEITO QUE FUNCIONA
Fala-se muito na Criatura, no caso o time e o Messi, que devoraram o Criador, no caso o técnico Guardiola. O placar Barcelona 4 x 0 Manchester City é apenas um dos exemplos dessa tese. Mas vai além do placar. O veloz time inglês teve suas inúmeras oportunidades de fazer valer algum equilíbrio no placar, ao menos no início.
Mas o que faltava aos novos orientados do mestre que comprou Jesus? Muitos fundamentos. Fiquei com a nítida impressão de que os escorregões foram em sua maior parte do visitante, e isso me fez lembrar das reclamações do Flamengo no jogo contra o Palmeiras, quanto ao lado onde jogou a defesa do time carioca no primeiro tempo da partida ter sido encharcada. Vi isso acontecer rotineiramente nos jogos de Hockey de Grama, onde ficou claro, cada time tem e deseja usar uma dinâmica de jogo e o nível de encharcamento da grama sintética determina muitas coisas, entre elas, estabilidade da defesa, velocidade, etc.
Dos quatro gols marcados, os três primeiros poderiam ter sido evitados, foram frutos de falhas, algumas grosseiras, escandalosas, dessas inaceitáveis aqui no Brasil, sob pena de render fogo no inferno aos zagueiros. É que ainda abusamos de uma mentalidade colonizada, retrocesso mental, incapazes de ume leitura menos contaminada pela narração e comentários que idolatram aquilo que é apenas uma boa jogada, transformando-a em momento eterno, em torno de um deus de ocasião.
O poder de hipnose dessa forma de assistir os jogos, nos eleva a uma dimensão de paixão cega, e de repente paramos de assistir a partida. Afinal, como é que uma pessoa que considera um certo goleiro sensacional, vai ver a seguir esse mesmo personagem, com quatro opções de distribuição de jogo, ali, bem ao lado de seus pés, tocar a bola como se fosse um passe para o adversário?
O fato é que o Barcelona funciona. Tem três atacantes matadores, que sabem fazer gols, tem critérios hierárquicos a serem respeitados como código de conduta entre o grupo e principalmente compactuados entre esses mosqueteiros, numa versão real de um por todos e todos por um, e tem uma marcação "alta".
Quero falar dessa marcação "alta", que para mim é bem diferente no Barcelona em relação aos demais times, inclusive os europeus. Quando a equipe catalã realiza essa manobra, aplica um grau de intensidade coletiva muitas vezes maior do que a de seus adversários. E isso é possível, a meu ver por dois fatores. O primeiro é a qualidade coordenada do conjunto. O segundo é que os times europeu não dispõe de tantos recursos técnicos, habilidade para driblar, e sendo muito mais táticos, dependentes das linhas de passe, acabam sendo asfixiados com maior facilidade.
Disso decorre o menor caminho para o gol. Tomar a bola de um adversário que está se armando para sair com ela de sua defesa é muito, mas muito vantajoso. A ponto de poder arriscar que rifar a bola pode ser até melhor solução em mais de 40% das vezes. O que assistimos em dois gols foi da ordem do ridículo. Verdadeiros passes para fechar o caixão e dispensar até o jogo de volta.
Um Neymar agraciado pelo amigo para bater o penalty, erra e pouco depois faz o gol mais bonito da partida, com a anuência do mestre, que o "chama" para a jogada e depois só deixa o pupilo desaguar toda sua fúria, pelo desperdício anterior. A torcida vê o lance de um modo menos entusiasmado, como se fosse apenas o cumprimento de uma obrigação. Tem uma certa razão. Há uma sobra tão grande de qualidade, que acabam exagerando na empáfia, o que as vezes pode fazer falta.
Dos times que seguem por esse caminho, hoje em atuação pelo mundo, creio que a seleção brasileira com Tite é a que mais se assemelha ou melhor, está em condições de adotar o padrão Barcelona de jogar bola. Tem a qualidade técnica necessária. E já está demonstrando isso. Pode desaparecer ao jogar com times mais fracos, onde a zona de conforto destrói o desejo em manter essa aplicação em campo.
Vamos ver contra a Argentina. Por enquanto é Barça.