UM TIME DIPLOMÁTICO, COM DIREITO A FAIRPLAY

A decisão de assistir a 1a partida do Brasil observando não a torcida que viaja para acompanhar o time em um mega-evento, mas o torcedor de raiz, que fica em pé antes, durante e depois do jogo foi mais que acertada. Pra começar, um verdadeiro muro divisor na área da FAN-FEST, para o caso de jogos onde exista algum tipo de animosidade entre os países e suas respectivas torcidas. Não foi o caso dessa partida - assim como o jogo entre os patrícios da Península Ibérica - onde todos se misturaram com todos.
A forma como o cidadão suíço torce para o time está associada a escola de futebol desse país. O chamado "verrou suisse", em Francês, foi o primeiro sistema defensivo da história do futebol, a figura do líbero nasceu por aqui. Passei por Berna, a capital daqui, onde morreu o austríaco Karl Raspan, jogador que inventou o sistema defensivo. No futebol isso não é muito apreciado em alguns lugares do mundo. No basquete, decisivo. O sistema tático "WM", inventado na década de 30 está no DNA dessa torcida. Por aqui, a cada tentativa de gol do Brasil, anulada, um grito de alegria coletiva, como se fosse um gol.
Na real, para esse torcedor, o negócio era anular o maior ataque do mundo. O fato do Coutinho ter feito um belíssimo gol não mudou em absolutamente nada o jeito do time - comandado pelo meu xará, Vladimir Petkovic - jogar. Quem mudou foi o Brasil, que havia começado com um ritmo forte e decidiu se acomodar, acreditando que o adversário iria se abrir e facilitar as coisas.
Será que não explicaram pra galera na preleção que as chances disso acontecer com o ferrolho é zero? Um outro detalhe é que realmente o Neymar goza de uma certa antipatia da torcida, pelos seus malabarismos que implicam em faltas que quando apresentadas em câmera lenta dão a impressão de que nem foi tocado. É bem diferente do Pelé. O Brasil deixou que gostassem do jogo ao final do 1o tempo e colocou um certo sapato alto. Era superior? Claro que sim. Mas o salto não ajuda.
Ao ceder um escanteio, a maldita bola parada, um empurrãozinho, dois empurrões e um Miranda excessivamente diplomático, que deveria era estar atracando-se ao cara e dificultando sua ação, se vê totalmente fora da jogada. Cabeçada certeira, torcida em delírio e muito tempo pela frente. Até dava pra ganhar. Quis o corpo diplomático em campo que isso não acontecesse. Afinal já bastam as lambanças da CBF nesses últimos tempos, sendo a mais recente indesculpável, a um nível que retira do Brasil o favoritismo.
Fala-se muito em caminho difícil e caminho fácil para se chegar a final. A Alemanha perdeu para o México. Pode inclusive se classificar em segundo lugar e aí muda o caminho, indo encarar a Argentina no lugar do Brasil, antes da decisão. Falei que as Guerras promovidas pela França e Alemanha em território russo foram perdidas pelos dois países. Acredito que essas dimensões geopolíticas estejam entrelaçadas no Cosmos.
Nosso time dentro de campo não decepcionou, embora Neymar ainda esteja longe da sua melhor forma, intensidade, dinâmica, verticalidade. Ninguém fica três meses sem jogar bola impunemente. É como tocar guitarra. É preciso o entrosamento com a banda e o palco com a platéia. Os coadjuvantes foram muito bem, o time martelou e não fosse pela ansiedade de Firmino - evidenciada desde o amistoso em Liverpool - a bola entraria mais de uma vez.
De algum modo a relação de entrosamento entre brasileiros e o povo daqui data de longo tempo. Estando por aqui, posso afirmar categoricamente que esse foi o resultado mais conveniente, que oferece ao time do país que sedia a FIFA, e uma dezena de outras Federações Internacionais de Esportes, a oportunidade de se manter viva na competição. Como escrevi antes e repito para quem não leu, não se iludam, vencer o time de Shakira não é uma tarefa fácil, nem pra o Brasil, nem pra outro time qualquer.
Porque aqui o ferrolho e o canivete são marcas registradas do país. E o empate com o melhor ataque do mundo é comemorado como se fora a conquista de um título. Os carros pelas ruas, com bandeiras e buzinas, me fazem lembrar do tricampeonato brasileiro em 1970, quando saí pelas ruas do subúrbio carioca com meu pai em seu táxi, acompanhado pelo então motorista e sócio Lelo, com a bandeira do Brasil fora do carro, feita a mão pelo habilidoso brasileiro de nome José.