A decisão de assistir a 1a partida do Brasil observando não a torcida que viaja para acompanhar o time em um mega-evento, mas o torcedor de raiz, que fica em pé antes, durante e depois do jogo foi mais que acertada. Pra começar, um verdadeiro muro divisor na área da FAN-FEST, para o caso de jogos onde exista algum tipo de animosidade entre os países e suas respectivas torcidas. Não foi o caso dessa partida - assim como o jogo entre os patrícios da Península Ibérica - onde todos se misturaram com todos.
A forma como o cidadão suíço torce para o time está associada a escola de futebol desse país. O chamado "verrou suisse", em Francês, foi o primeiro sistema defensivo da história do futebol, a figura do líbero nasceu por aqui. Passei por Berna, a capital daqui, onde morreu o austríaco Karl Raspan, jogador que inventou o sistema defensivo. No futebol isso não é muito apreciado em alguns lugares do mundo. No basquete, decisivo. O sistema tático "WM", inventado na década de 30 está no DNA dessa torcida. Por aqui, a cada tentativa de gol do Brasil, anulada, um grito de alegria coletiva, como se fosse um gol.
Na real, para esse torcedor, o negócio era anular o maior ataque do mundo. O fato do Coutinho ter feito um belíssimo gol não mudou em absolutamente nada o jeito do time - comandado pelo meu xará, Vladimir Petkovic - jogar. Quem mudou foi o Brasil, que havia começado com um ritmo forte e decidiu se acomodar, acreditando que o adversário iria se abrir e facilitar as coisas.
Será que não explicaram pra galera na preleção que as chances disso acontecer com o ferrolho é zero? Um outro detalhe é que realmente o Neymar goza de uma certa antipatia da torcida, pelos seus malabarismos que implicam em faltas que quando apresentadas em câmera lenta dão a impressão de que nem foi tocado. É bem diferente do Pelé. O Brasil deixou que gostassem do jogo ao final do 1o tempo e colocou um certo sapato alto. Era superior? Claro que sim. Mas o salto não ajuda.
Ao ceder um escanteio, a maldita bola parada, um empurrãozinho, dois empurrões e um Miranda excessivamente diplomático, que deveria era estar atracando-se ao cara e dificultando sua ação, se vê totalmente fora da jogada. Cabeçada certeira, torcida em delírio e muito tempo pela frente. Até dava pra ganhar. Quis o corpo diplomático em campo que isso não acontecesse. Afinal já bastam as lambanças da CBF nesses últimos tempos, sendo a mais recente indesculpável, a um nível que retira do Brasil o favoritismo.
Fala-se muito em caminho difícil e caminho fácil para se chegar a final. A Alemanha perdeu para o México. Pode inclusive se classificar em segundo lugar e aí muda o caminho, indo encarar a Argentina no lugar do Brasil, antes da decisão. Falei que as Guerras promovidas pela França e Alemanha em território russo foram perdidas pelos dois países. Acredito que essas dimensões geopolíticas estejam entrelaçadas no Cosmos.
Nosso time dentro de campo não decepcionou, embora Neymar ainda esteja longe da sua melhor forma, intensidade, dinâmica, verticalidade. Ninguém fica três meses sem jogar bola impunemente. É como tocar guitarra. É preciso o entrosamento com a banda e o palco com a platéia. Os coadjuvantes foram muito bem, o time martelou e não fosse pela ansiedade de Firmino - evidenciada desde o amistoso em Liverpool - a bola entraria mais de uma vez.
De algum modo a relação de entrosamento entre brasileiros e o povo daqui data de longo tempo. Estando por aqui, posso afirmar categoricamente que esse foi o resultado mais conveniente, que oferece ao time do país que sedia a FIFA, e uma dezena de outras Federações Internacionais de Esportes, a oportunidade de se manter viva na competição. Como escrevi antes e repito para quem não leu, não se iludam, vencer o time de Shakira não é uma tarefa fácil, nem pra o Brasil, nem pra outro time qualquer.
Porque aqui o ferrolho e o canivete são marcas registradas do país. E o empate com o melhor ataque do mundo é comemorado como se fora a conquista de um título. Os carros pelas ruas, com bandeiras e buzinas, me fazem lembrar do tricampeonato brasileiro em 1970, quando saí pelas ruas do subúrbio carioca com meu pai em seu táxi, acompanhado pelo então motorista e sócio Lelo, com a bandeira do Brasil fora do carro, feita a mão pelo habilidoso brasileiro de nome José.

JOGANDO NA CASA DO ADVERSÁRIO: A SUÍÇA

Quem pensa que esse jogo vai ser fácil para o Brasil é porque não viu em 2014 o grau de dificuldade que a Argentina teve para avançar diante desse time difícil de ser batido. Nessa Suíça que me abriga, o futebol é transmitido pela rede de televisão pública, com seus dois canais, sendo o RTS Deux o específico para esportes. Até aqui sem tecla SAP, o idioma corrente em Lausanne para se ouvir é o francês e a narração segue educada, calma e sem grandes emoções, como se fosse um telejornal que oferece os fatos, sem aquele ufanismo que nos é peculiar.
Para o ano que se aproxima, novas regras para cidadãos que usarem um Canal público deficitário: todos terão que pagar 300 francos suíços - cerca de 300 dólares - para ter acesso aos programas de TV, Rádio, Internet e outras modalidades, existentes ou a existir. Os cidadãos deixam de estar obrigados caso não tenham internet ou qualquer meio de recepção midiática. A TV pública segue naquela mesma balada, como em todos os lugares do mundo, ela sabe o que é melhor e ponto. Só que uma boa parte da população acha que é conteúdo sem interesse. Como o plebiscito decidiu por essa doação compulsória dos moradores, restou pagar a conta.
Os telões para a grande aglomeração das torcidas estarão em Ouchy, na beira do maior lago da Europa, e já falei dele por aqui. O que não falei é que os brasileiros são a segunda maior população de imigrantes desse país, só superados pelos portugueses. Há uma relação de amizade muito grande entre as pessoas, basta que alguém veja a camisa, ainda que discreta, com o escudo do Brasil para que você seja saudado e nomes de jogadores sejam mencionados. Fiquei com a impressão, ainda que superficial, de que somos muito queridos por aqui, futebolisticamente falando.
A decisão de assistir essa partida por aqui foi se amalgamando por um conjunto infinito de razões tão grande que só dá pra chamar de acaso. Mil rotas foram planejadas, dez mil orçamentos foram comprometidos, dezenas de mapas desenhados, centenas de horários pesquisados, milhares de pessoas envolvidas, inumeráveis cidades consideradas. Mas a partir de uma sucessão de acontecimentos, envolvendo a greve dos caminhoneiros, o abandono do barco da viagem pelos supostamente companheiros nessa travessia, a comemoração de 101 anos da revolução russa, a saída de trem por Helsinki, os bilhetes prometidos que desapareceram a menos de 5 metros das minhas mãos, a recusa em desistir, a enorme receptividade que aqui recebi, acabaram me dando a noção de que olhar o adversário, não como espião, mas como alguém interessado em explorar a visão de um estrangeiro no momento de suas manifestações de rua de natureza mais lúdica, poderia ser uma possibilidade única.
Coube a mim a tarefa de assistir o jogo do Brasil, na casa do seu primeiro adversário, um lugar de água de 1a qualidade, chocolate, vinho para consumo interno, carros e bicicletas elétricos, bancos em cada esquina, diversidade linguística e muitas outras armas para a civilidade. Gastei quase três dias, procurando uma bandeira do tamanho merecido por esse lugar. Foi então que em minha homenagem, decidiram hastear essa da fotografia, que na verdade vai parar ali a cada início da temporada de um curto verão de apenas três valiosos meses. Não podia estar em lugar melhor para desfrutar desse jogo, como se fora um aperitivo daquilo que nos espera na Rússia.

O QUE NOS AGUARDA A BOLA DA SEXTA?

Com três jogos depois de uma abertura frenética para os filhos de Putin - cuidado com trocadilhos bastardos - é muito provável que a partida mais quente seja mesmo entre Portugal e Espanha, já que Marrocos contra o Irã é um pouco na linha do tanto faz como tanto fez, e o Uruguai de Suarez e Cavani não devem sofrer muito para ganhar do Egito. Ou será que não?
Conversando hoje na Suíça com uma brasileira - que está a caminho do Festival de Montreaux - sobre a Copa do Mundo, ela fez a seguinte afirmação, mais do que justa: "como é que vamos assistir um jogo desses e não ter a Itália na disputa?
De fato, a modificação das regras adotadas pela FIFA para a classificação de times segue uma nova lógica que acaba por criar surpresas a serem superadas por uma ampliação das vagas para a próxima edição do evento.
Enquanto isso não acontece, já deixo o nome do atleta dessa sexta-feira, que considero o jogador mais completo do mundo na atualidade: Salah. O cara é um monstro e está numa forma técnica e física excepcional.
Lamentavelmente foi vítima de um lance de pura deslealdade na decisão da Champions League contra o Real Madri e certamente se for confirmado, diferentemente de Neymar, que parece ter voltado voando - não se apresentará no melhor de sua forma.

Tem gente que gosta de andar, outros preferem pedalar. Ambas as escolhas levam a saúde, mas a segundo pode economizar um pouco do seu escasso tempo. Suar pode não estar muito nos seus planos. E se a cidade tiver subidas mais íngremes, ou mesmo ladeiras de baixa inclinação, pode ser que esse obstáculo se torne a justificativa perfeita para não usar a bike como alternativa.
As bicicletas elétricas vieram para dar fim a essas desculpas. E vão ocupar um lugar muito importante num futuro mais próximo do que você imagina.
Estou nesse momento testando o sistema suíço da PubliBike. O aspecto mais importante nesse tipo de opção é o controle e a capacidade de seus novos usuários em usar um meio de transporte novo, que pode muito bem ser considerado com uma motocicleta.
Isso reduz o número de usuários, logo de cara. Mas não se iluda, porque a juventude é rápida em ciclos de mudança. Não serão as bicicletas sem motor as de domínio público. Essas ficarão confinadas aos aficcionados e atletas. A maioria vai usar as com apoio ao pedal. E isso é bem mais realístico para as situações cotidianas típicas.
A Revolução está só começando e Lausanne já tem o Dia Nacional da Bicicleta. A Cidade vive.

ENCONTROS E DESPEDIDAS RUMO A MOSCOU

O lugar chama-se "The Great Escape", um pub suíço animadíssimo, com música de qualidade e muita gente no balcão para pegar sua caneca de cerveja. Logo ao entrar, lá estava na parede o desenho do destino dessa viagem. A Rússia vai aparecendo, pouco a pouco.
Os amigos suíços da mesa foram muito simpáticos e receptivos a proposta de antecipar o encontro da 1a partida da Copa do Mundo. Foi lindo, a simpatia habita esse lugar, um carinho na mesa, alguns já estiveram no Brasil e adoram a terrinha. Nada é de um jeito só. Recomendação do amigo Jorge Marcílio e fotografia do consultor para a noite de Lausanne, Lucas Tex. Obrigado aos meus parceiros dessa viagem, Marcelo BarrosLuis Carlos Sanabria e os demais pares astrais.

Na sequencia, mais amigos, dessa vez na MAD, que realiza todas as quintas-feiras um jantar gratuito para um público de faixa etária entre 30 a 50 anos, com o intuito de realizar a fidelização dos clientes, num dia de pouco movimento - a casa de espetáculos tem alguns andares para atender público dos mais diferentes tipos aos sábados e domingos - e dessa forma dar ritmo para que a equipe de trabalho esteja bem afinada quando o bicho pegar. Certamente a melhor casa noturna da cidade de Lausanne, proporcionou um brinde com água mineral com gás e encontros de resgate com a educação. Sempre bem atendido por gente frequentadora do lugar faz décadas, engatei uma conversa em alto nível com um novo amigo. Ficou pra história. Fez questão de me apresentar a Vanessa, brasileira, que trabalha na casa já faz dois anos e me deram inúmeras dicas para os dias por aqui. Eles no vinho e eu na água, combinação indispensável para quem não quer sentir dor de cabeça.

A ANTI-VIOLÊNCIA COMO RESPONSABILIDADE DO ESPORTE

A violência no Brasil em geral e no Rio de Janeiro em especial não são obra do acaso. Também não por acaso que a escultura por onde se inicia o desfile de dezenas - logo na entrada do Museu Olímpico de Lausanne - seja a da figura abaixo. Reforça minha opinião sobre como o Esporte pode ser determinante para a redução nos índices de violência para países e a humanidade como um todo. A pitoresca escultura de um revólver com um nóem seu cano é típica de séries de desenho animado. Antes de chegar a esta, havia acabado de passar por uma exposição fotográfica, onde o revólver era justamente a obra escolhida pela curadoria para o cartaz da exposição.
Lembrar da trilha "Violence" da diva Lana Del Rey também acusa a presença desse elemento tão nocivo em todas as nossas relações, sejam elas familiares ou meramente de passagem. Com ou sem raízes, as tensões se acumulam e o esporte é uma válvula de grosso calibre, por onde a catarse pode se realizar sem medo. A regra do jogo nem sempre é clara para todos, mas estamos no caminho certo quando assumimos como prioridade a atividade esportiva como elemento indispensável a civilidade.
Uma país ou cidade com intensa agenda esportiva será quase sempre mais saudável e menos violento. É claro que ainda há a estupidez daqueles que vão para as ruas pedir mais segurança e saúde, esquecendo que hospital cuida de quem está doente e segurança é para lugares sem a canalização de tensões via atividade esportiva. É preciso ser um pouco menos binário nas conclusões precipitadas sobre as soluções que desejamos para nossa sociedade.

A ÓPERA-BIKE DO TEATRO LAUSANNE

Após perder por muito pouco a apresentação de Swan Song, coreografada pelo Béjart Ballet de Lausanne, não me preocupei. A cidade é abarrotada de eventos artísticos. Indo em minha tentativa de fotografar o lago que dá fronteira para a França - que muitos arriscaram atravessar nadando e alguns morreram - acabei indo parar em frente ao muito bem cuidado Ópera Lausanne.
Ali me esperava o anúncio da Ópera Simon Boccanegra, com um cartaz belíssimo, pelo qual, antes mesmo de entrar, imaginei o cenário da obra e me apaixonei. Já ia seguindo, quando não resisti e voltei para fotografar o cartaz, e quem sabe ter uma chance de assistir de fato o espetáculo.
Foi então que apareceu uma bela suíça, com sua bike cube híbrida, fazendo uma interferência perfeita na primeira ideia. Se já temos a Ópera-Rock. Mas essa interferência, fruto do acontecimento espontâneo, dos encontros de rua, do ar que a cidade respira, do modo como as pessoas se locomovem, cada um na sua, foi o mínimo a deixar de presente por aqui.
Pedi a moça para fazer uma foto com sua bicicleta e ela gentilmente autorizou a ousadia e me deu uma das melhores assistências de produção para essa soma de obras de arte.
Nasceu aqui, a Ópera-Bike. Que me perdoem os caminhoneiros e os demais adeptos do transporte insustentável baseado em combustível fóssil, leia-se petróleo, mas o futuro está bem próximo, e começa por aqui. As bicicletas elétricas não são como as guitarras elétricas do rock and Roll, mas vão fazer barulho, mesmo que silenciosamente.
E como o silêncio combina com cinema mudo, quem sabe não vou visitar a casa onde morou Chaplin e peço uma consultoria espiritual pra somar com as obras também silenciosas do Stanley Kubrick - aquele silêncio de 2001 Odisséia no Espaço que fez figuras como Woody Allen odiarem o filme - ou o mais recente, que considero uma obra-prima do terror, do Stephen King, o bem realizado "Um Lugar Silencioso".
Esses lugares impõem um certo tipo de inspiração, do qual não é possível escapar. A Ópera-Bike está a caminho. Olhe ao seu redor.
http://www.opera-lausanne.ch/…/detail…/simon-boccanegra.html

O DIA DA BICICLETA NA SUÍÇA

A curiosidade em torno das novas tecnologias para bicicletas me acompanham desde que praticamente nasci. A família já fabricou essa forma genial de transportar coisas e pessoas, eu mesmo já projetei a minha, que me acompanho na viagem para a RIO +20, como a única no perímetro do evento - uma contradição que me assustou - em um lugar cujo uso das mesmas deveria ter caráter obrigatório.
Nos últimos anos comecei a pesquisar bicicletas elétricas de nova geração. Cheguei a uma marca que utiliza o novo sistema da Bosch e o seu alternativo da Yamaha. As Haibikes são o que considero de melhor nesse novo mundo.
Entrevistando o técnico responsável pela montagem das belíssimas da espécie, ficou claro que os 500 a 700 francos suíços de distância entre uma e outra se justificam pelo sistema que cada uma representa. Não há como comparar o da Bosch com qualquer outro. Para começar, um mecanismo de autodiagnóstico, para em caso de algum defeito, rapidamente chegarmos a alguma conclusão. Além disso, o desempenho seja com a pedalada mais forte em alta velocidade ou em mais baixa, é insuperável em termos de rendimento. Apesar da taxa de potência nominal da Yamaha ser supostamente superior, na prática a história é outra. Por fim, a blocagem da engrenagem, protege você e os elementos internos, não prenderá a calça comprida, não terá os elementos da engrenagem e corrente em contato com partículas e objetos que podem prejudicar sua performance.
A loja muito bem equipada me autorizou a fazer a matéria, que terá uma versão em vídeo, para logo. Até lá, sigo cadastrado no serviço PubliBike suíço e espero dar umas pedaladas em breve. A turma daqui é muito saudável, está bem mais preparada, vai ser difícil encarar.
Na lista para a próxima parada na rota Trindade-Paraty, segue a insuperável em relação custo-benefício, Haibike Trekking 40 com componente Yamaha. É um bom começo.

O WAKI-GATAMI DA CHAMPIONS LEAGUE

Venho assistindo com bastante apreensão a intensificação da violência e da gravidade de lesões no futebol, em especial no caso brasileiro, dentro e fora das quatro linhas. A torcida ajuda, parte dela violentada e vilipendiada, tal qual um desajustado qualquer, vai em busca de um bode expiatório para desembocar seu recalque, muitas vezes vítimas mais fracas.
As lesões já deveriam ter alertado aos formuladores de regras sobre a necessidade de novos equipamentos de segurança - em especial para a cabeça - mas os interesses de marketing ainda falam mais alto. Um cabelo arrumadinho, um produto de beleza, requerem belos rostos estampados nas vitrines. Não dá pra usar capacete, né?
Mas o que assisti na partida entre Liverpool e Real Madri extrapolou qualquer termo de negociação com o absurdo. Um golpe como o aplicado deveria ser objeto de uma punição que afastasse o seu infrator por algum tempo dos gramados. Saiu barato a vítima Salah. Essa coisa de chave-de-braço é para inutilizar adversários. A Ronda Rousey cansou de ganhar lutas no sistema MMA graças a sua especial habilidade e força nesse golpe, mortal, volto a repetir.
Logo assim que vi o lance, ao lado de um amigo da família, que nunca lutou judô, peguei o seu braço e fiz uma alavanca apenas com o uso do movimento do corpo, e ele imediatamente gritou. Agora imaginem vocês, em pleno movimento de velocidade, ter o corpo de um outro cara caindo sobre suas articulações na posição fatal?
Não se pode aceitar que o futebol se transforme nisso. Algumas novas regras de segurança precisam ser consideradas. Muitos lutadores pelos gramados, jogadas desleais, tudo isso empana o talento. Corro o risco de não ver Salah na Copa do Mundo por causa de um filho da puta qualquer, que decidiu quebrar o melhor jogador do mundo da atualidade.
Não são poucas as vezes em que lesões mudam o destino de resultados de partidas. Nesse mesmo dia, o Houston Rockets perdeu para o Golden State pela ausência do armador decisivo, contundido já ao final da partida anterior. Mas há que se considerar o que é casual do que vem por força de uma ação intencional. O cinismo aplicado na situação aponta para a frieza com que o egípcio foi tirado de campo. Seguindo por esse caminho, em breve estaremos aceitando mata-leão e até que algum atleta seja apagado em campo, desde que com carinho. Quando esse dia chegar, parei com futebol. Vou ficar só com as lutas explícitas e com os melhores desse esporte, boxe, judô, etc.

UM BRASIL E UMA CERTA ALEMANHA

Lá se vão trinta e seis aninhos. Muitos verões e primaveras, saudosismos de dar inveja ao velho Marcel Proust, mergulhado na luz de Lana Del Rey e suas aflições metafísicas com direito a selinhos e uivos de uma platéia em êxtase. Era essa a sensação no puleiro do Maraca. Chegar em cima da horasempre deixou os incautos nas pontas dos pés. Mas era bem democrático, o acesso menos gourmetizado do que as cenas que assisti na Copa de 2014, em plena Belo Horizonte.

Não há como esquecer a força da escola alemã de futebol. Digam o que quiserem, é lá que moram 4 Taças de Copa do Mundo. Então, de fato existem 3 grandes forças futebolísticas, leia-se Brasil, Alemanha e Itália. E entre elas, a mais promissora, com números de país potência, dominante na dimensão econômica em seu continente, é a Alemanha.
Lá se vão trinta e seis aninhos. A me dizer que toda essa aparente superioridade sucumbiu aos pés de um neguinho da Cruzada de São Sebastião. Para quem não sabe, uma das favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro, fábricando os craques do asfalto. Todos os caminhos bloqueados, Adílio tira da cartola de seu variado repertório uma puxadinha, e encontra Júnior - que ainda não era chamado de maestro, mas sim de "capacete" - numa ultrapassagem além da imaginação-gringa e nessa mistura de ultrapassagem de um lateral com futebol de areia, um gol de placa. A torcida explodiu. E tudo aquilo era apenas um amistoso. Acontece que no confronto entre escolas de futebol não há amistosos que não entrem para a história. E hoje, na vitória pelo mesmo placar, no mesmo mês - quase no mesmo dia - o Brasil deixou sua marca na memória do povo alemão.
Digam o que quiserem. O Muro de Berlim foi derrubado. Não aquele da geografia física, que separou por décadas o povo da de uma Alemanha unificada por Bismarck. Os brasileiros ali presentes cumpriram seu papel, de vencer um obstáculo psicológico, um pós-traumático pesado, jamais experimentado por qualquer grande time da história, aqueles sete gols que calaram o país. A empáfia marketeira exigia um castigo dessa proporção, nós pedimos, os deuses deram.
Na madrugada que antecedeu a tragédia, saí do Rio de Janeiro, acompanhado da amiga do Diário As, uma musa pra torcida brasileira chamar de sua, melhor parceira para uma viagem impossível. Muitos profissionais do ramo esportivo participam de eventos como a Copa com cotas limitadas, jogos pré-definidos, conforme suas nacionalidades, etc. Quando a encontrei, a moça estaria fora da partida entre Brasil e Alemanha. Com meu plano em mãos, fui inclusivo, ela topou, fizemos juntos, e deu tudo quase certo. Estar presente nessa fase decisiva era um sonho pra qualquer um. E nada que o valor de uma passagem de ônibus entre Rio e BH não coubesse no bolso.
Revisitando o Mineirão, onde já havia passado e mapeado território, coube rever os amigos onde as torcidas se reúnem para comer comida mineira de preço bem honesto. Quantas histórias. Combinado estava de entrar. Até ingresso para isso a moça me providenciou. Mas resolvi insistir pelo caminho oficial, e os entraves burocráticos acabaram me levando a uma bela delegacia montada dentro das instalações do Estádio. Não era o único. O delegado me deu a opção de não processar ninguém e voltar para o Rio de Janeiro sem ser preso. Achei a proposta equilibrada e desisti de ver o jogo de dentro do estádio. E deu no que deu.
Acompanhando os dois times, desde o período preparatório, sempre considerei o time alemão favoritíssimo. Fizeram o dever de casa, usando as sandálias da humildade, beijando o chão alheio, atuando no social, esbanjando simpatia e jogando futebol acima da média, coletivo e técnico. Sem gênios, mas com a escola que os qualifica como candidatos atemporais a títulos.
De lá pra cá, uma crise de imoralidades desabou sobre mundo do futebol. O protagonismo do Brasil? Deslizes. Os reflexos na performance de nossos talentos? Relevantes. Não serão objeto dessa conversa. Os cacos da redenção pela busca de paspalhos expiatórios, condenou toda uma geração de inertes deslumbrados por cuecas e marcas de cervejas. Tudo passa, linha dura e enquadramentos, as mesmas roubadas de uma cultura repressiva como solução de crise. Não foi diferente na seleção brasileira do mesmo - e portanto limitado - Dunga. Diferentemente do que vimos, onde a Holanda curtiu e jogou, onde até a Colômbia jogou e brincou, onde a própria Alemanha desfrutou da energia do povo daqui e conquistou sua quarta estrela, o Brasil endureceu, furioso, aplicando o castigo da violência contra os seus próprios.
A virada tinha que vir, merecemos algo melhor. Com o ouvido nas Óperas, atendendo aos apelos sinfônicos, entra em campo, tardiamente, Tite. A reconstrução encontrou seu caminho. Uma sequência que recuperou para a nossa seleção a posição merecida no ranking. Escalar Gabriel Jesus, uma ousadia, jovem e ainda atuando no Palmeiras, só ele e Guardiola pra bancar a briga com os interesses de cachorros grandes. Nós recuperamos um bom padrão de jogo, superior ao de qualquer outro time das Américas, e a posição de número 2 no ranking da FIFA.
Faltava a cereja nesse bolo Pré-Copa do Mundo. E ela veio em dose-dupla. A vitória em Moscou, no estádio onde será disputada a final, diante da fraca seleção russa, e esse gol de Jesus em plena Berlim. Pode parecer pouco, mas é muito. Nós já havíamos quebrado um tabu, em 2016, ao levar o 1o ouro olímpico, diante dessa mesma Alemanha. Lá estavam alguns dos jogadores que entraram em campo nesse time reserva de Low.
Guardadas as devidas proporções, o clássico entre Flamengo e Fluminense, onde o time tricolor ganhou por 4 gols do time reserva rubro-negro tem sabor diferente para cada torcida envolvida. Entra para as estatísticas, mexe com o psicológico, e sabemos, isso fará diferença lá na frente. Foi bom ganhar dessa força que no último embate meteu foi 7. Destrava a rapaziada, deixa tudo mais leve, seja lá o que venha a acontecer.

DOMINGOS QUE VIRARÃO SÁBADOS

Para os Adventistas do 7o Dia o descanso é celebrado religiosamente aos sábados. Metafisicamente falando, as trevas antecedem a luz e daí uma confusão dos diabos. É certo que o tempo e Cronos em sua expressão mais demoníaca, escravizam nossas ações. E vocês irão me chamar de idiota daqui a cinco segundos ou dois séculos. A temporalidade é de cada um, o tempo é inventado por quem pode.
E foram muitos os que puderam. Lá estava Júlio César, do alto do Império Romano, copiando o calendário mais eficiente do Egito de Cleópatra e de quebra dando a um dos meses o próprio nome. Ou ainda um Papa da Igreja Católica, se arvorando a instituir mudanças e nos entregar o calendário gregoriano. Até mesmo a Rússia, com toda a sua ortodoxia, abdicou do velho para seguir com o novo, e com isso alinhar-se aos vizinhos europeus com suas referências internacionais.
O fato é que todos os calendários continuam a coexistir. E os chineses comemoraram como sempre o Ano Novo que é uma exclusividade deles, assim como os judeus o fazem com o seu. Não são poucas as situações onde se encontra essa variedade de tempos e medidas, uma vez que o movimento inclui hábitos e crenças atávicas e toda uma ambientação cultural que nos imerge na tradição.
Para o futebol, no Brasil onde a conta é paga pela TV e a Globo dita as regras, toda a dinâmica de eventos cumpre a orientação da grade. Até que as receitas nasçam das estruturas mais móveis, do streaming sob demanda, tudo que depender da AUDIÊNCIA DO AO VIVO, seguirá obedecendo as normas internas da Instituição. Ela manda.
Tem sido assim com as transmissões exclusivas dos Desfiles de Escolas de Samba do Grupo Especial para o resto do mundo. Um produto que agora inclui a transmissão de uma espécie de "Mini-Escola de Samba", dentro do Estúdio Globeleza, construído justo na estrutura arquitetônica da Praça da Apoteose, como se fossem Hierofantes de um templo profanado, de um Deus caído, mestre Darcy Ribeiro, esse mesmo que preferiu não ressuscitar da tumba. Só se remexeu e estrebuchou, mesmo assim, muito pouco.
O que era uma questão de não colisão com o chamado horário nobre - esse que é responsável por mais de 70% das receitas do 3o maior grupo de TV do mundo - virou uma outra questão, a de mudança de dia, mês e quem sabe no futuro até de ano. Uma vez que a geografia já foi inteiramente bagunçada, a ponto de podermos assistir até a disputa inédita de uma "Taça Fora da Guanabara", agora resta ajustar tempos e relógios em conformidade com o suposto lucro. Eu disse, suposto, mas posso estar errado.
É de um imediatismo cego e de uma miopia de resultados no curtíssimo prazo, adotar a vontade dos compradores de eventos para determinar horários e lugares para os mesmos. Eles pagam a conta? Não tenho dúvida que sim. É uma parceria necessária. Certamente. São a inteligência do negócio? Definitivamente não. Digo isso porque os limites das contas que realizam é exclusivamente financeiro e possuem um framework limitado as receitas e prejuízos apenas para um dos processos, que é a transmissão. Mas um evento é repleto de dezenas de outros elementos, que se falharem o colocarão na prateleira dos produtos ruins. E aí meu amigo, serão descartados.
Seguindo essa lógica, quero voltar ao Domingo, dia sagrado, no calendário vigente do país. Não vai aqui qualquer divisão sectária, religiosa, apenas a constatação de um fato culturalmente adotado e aceito. Guardamos o domingo como dia de descanso, para ir ao cinema, ter um almoço em família, jogar um altinho na praia com amigos, uma pelada num campo de subúrbio, ou simplesmente assistir uma partida de futebol, no Maracanã ou pela TV. Cheguei onde queria. A Rede Globo de Televisão aboliu os Clássicos aos Domingos. Há algumas hipóteses sobre a razão de sua decisão. Usarei algum tempo aqui para superficialmente aborda-las.
Segundo o amigo Marcelo Barros, houve um evento que mudou o mapa de compreensão da intelligentsia da Rede Globo. Apesar do contradição estampada na frase do jornal do mesmo grupo, "Para um clube que considera a torcida seu maior patrimônio, é no mínimo estranho atuar num estádio vazio", o jogo do Corinthians contra o Milionários da Colômbia, cumprindo punição pela morte do torcedor boliviano Kevin Espada, trouxe, além da tragédia da violência que afasta o público, uma audiência recorde. A partir dali, os profissionais que cuidam de audiência concluíram que o melhor a fazer com a torcida era deixar que ficasse em casa. Ao fazê-lo, o chefe da clã não só monopoliza a TV para ver o que ficou proibido no estádio, como alinha telespectadores, filho, irmão, mulher, pai, cachorro, gato e o escambau!
São justamente desses que a turma dos números precisa, no curto prazo, para apresentar relatórios cada vez mais promissores sobre o retorno de mídia para os patrocinadores. Todavia, essa lógica tenderá a matar a galinha dos ovos de ouro local. Não precisaria explicar porque, para um público especializado e esperto. Mas o farei em respeito aos menos informados sobre o tema.
Um espetáculo de futebol, como outro qualquer, tem sua beleza pela presença do público. É sabido que todos os grandes astros das mais diferentes bandeiras e manifestações artísticas, música, dança, circo, teatro, cinema e tv, adoram o calor do público brasileiro. Por aqui foram gravados muitos. Se perdemos em aspectos técnicos e tecnológicos, ganhamos na alegria e em outros quesitos. Há exceções, é verdade. Mas uma minoria fácil de ser neutralizada. Basta querer e não fazer corpo mole.
O caso do espetáculo do futebol é emblemático. Enquanto grupos organizados e instituições milenares investem energia para que se criem hinos, mantras, símbolos, dentro do Maracanã e em outros pólos de futebol pelo país, reina a criatividade. Estrelas do anonimato, são protagonistas, como diria o Ator e Diretor de Teatro Ziembinski. Mas nessa seara, tudo que nasce é fruto de uma espontaneidade. A cultura local é muito forte e esbanja seu vigor. É bem diferente das plataformas mais organizadas e porque não dizer gourmetizadas da cena europeia.
O que então propõe a Rede Globo? Várias coisas, num só pacote. Que os times locais possam jogar fora de suas praças as competições regionais. Tal como um Fla-Flu no Pantanal, ou uma final da Taça Fora da Guanabara entre Flamengo e o novato em decisões Boavista. Pode ser em qualquer lugar. Não tenho notícias de nada parecido em qualquer lugar do mundo. E não poderia chamar isso de inovação, mas apenas de atendimento dos interesses da miopia e ganância empresarial. Mata-se também a imprensa de menor porte local, que aliás, permanece refém do medo.
A institucionalização de regras que promovam a decomposição da cultura futebolística está em curso. Há dezenas de outros componentes dessa cesta. Sou a favor de todos. Que assistamos a ótimo nível do futebol praticado na Europa. Que venha a Champions League, as Ligas da Inglaterra, Espanha, Itália, França. Mas por favor, a via de mão única tem um nome. E aponta riscos. Deixar de produzir talentos, e praticar o melhor futebol do mundo, um deles. Para quem vai vender o pacote da Sky, isso tanto faz. O produto da TV não é exatamente o Domingo no Maracanã, daquela música que uma certa torcida costuma cantar.
Como se não bastasse esse tal de fogo amigo da Odebrecht, que se apossou do Maracanã, comprometendo sua finalidade primeira, uma clara priorização de seus interesses, defendidos por uma legião de atores públicos corrompidos, o desvio de finalidade vai se somando ao obscurantismo e ausência de visão por parte dos que comandam essa máquina, pela via exclusiva do dinheiro. Os clubes são reféns dessa lógica, de onde estão, pouco ou nada podem fazer.
Vamos apelar pra Deus? Inclusive ele, mas quem sabe nós, partículas dessa infinita massa cósmica onde tempo e espaço se desmaterializam sem perder a consciência sobre nossa mais completa ignorância quanto ao fim ou início de novas possibilidades. Aqui não há saudosismo, apenas um convite ao levante com atitude.

CLÁSSICOS MATO-GROSSENSES DO ESPORTE BRETÃO

Era tempo de loteria esportiva com direito a cartão perfurado e zebra. As três colunas e os treze jogos não indicavam porque se criou uma relação tão forte com o Clube dos Treze. O Operário e o Mixto eram os times a serem vencidos, para o bem dos apostadores. Ou senão, zeeebra!

Tudo certo, aparecia aquela que para a turma do jogo tinha o mesmo valor afetivo que a galinha pintadinha para as crianças de hoje. Onde deixei minhas aulas de folclore? Sei lá. Só garanto que a capital é Cuiabá.

Não fosse a invenção de dois novos times, para alegrar a festa repleta de descendentes dessa miscigenação entre imigrantes europeus e índios bororós, eu já teria desistido da ideia de assistir uma partida de futebol contemporâneo naquele pantanal. Parece mesmo que é um dos únicos estádios que escapou das falcatruas para botar algum no bolso e encharcar a campanha presidencial de ocasião.

Em lugar do Cururu e seus repentes entre caipiras, desafiando uns aos outros, entrou o Fluminense do Mato-Grosso, uma nova modalidade de time, adotado como legítimo filho daquela terra. Para que não ficasse dúvida no ar, reforçaram a realização com a substituição do mais poético Siriri, outrora dançado por mulheres e crianças. É bom que se diga, não houve conflito entre torcidas, dentro ou fora do lugar da festa. O Flamengo Matogrossense Clube, criado para animar todas as festas, deixava a galera da arquibancada com o grito de gol na garganta, já que não aconteceu.

O que diriam as curandeiras do tornozelo do Neymar? Não fiquei sabendo. Posso dizer pelo meu, das poucas vezes em que torci o tornozelo, foram necessários pelo menos 15 dias de recuperação. Entre o momento que comecei a escrever o que seria uma má notícia, ela ficou pior. Incluíram um metatarso. Sobre esse assunto, escrevi em 2017 por duas vezes. Numa a vítima foi Kelly Slater. Ali saiu fora da luta por título ou prêmios na WSL. Na outra, ninguém menos que Gabriel Jesus.

Fez bem quem poupou atletas para jogos decisivos. A verdade é que ninguém tem como prever os acidentes de trabalho, numa profissão extremamente física como o futebol. Lia as fichas de atletas de alta performance na patinação no gelo, e lá estavam estampados tantos problemas e interrupções. Articulações, ombro, joelho, tendinite. Coisa de quem usa e abusa do corpo em alta rotação.

Não se pode esquecer, Pelé não jogou a Copa de 1962 e Garrincha brilhou com outros canários. Toda equipe precisa ter um Plano B. Nunca gostei da ideia de depositar toda a responsabilidade sobre Neymar. Temos como distribuir esse peso entre bons de bola. Ninguém poderia se enganar quanto a possibilidade real da estrela do PSG encarar o Real Madri. O caldo entornou? Pode ser que não. Combustível para o elenco de qualidade fazer da vantagem do jogo em casa sua maior arma.

Casa. Palavra importante. Desprezada pelos times cariocas. Mandar o jogo lá para o Pantanal foi uma furada. Perda de foco, técnico longe de casa, uma falta de noção, coisa de quem não pratica esportes. Esses deslocamentos já seriam ruins, o afastamento da torcida, muito pior. Sobrou mesmo o Cururu e o Siriri de um Fla-Flu Mato-Grossense.

NÃO SE PODE DEIXAR DE FALAR DO WILLIAN

Em dia de Pelé o craque agradece a Deus

Entrevistei esse cara em 2014. Desde aquele tempo sinto que há uma dificuldade em se entender um bom de bola, se por acaso for pouco midiático. É seu caso. Discreto, sem ser apático, sobra em campo. Eu disse que ele sobra. Todavia, só futebol não é suficiente no mundo em que vivemos.

Houve uma certa dificuldade até que fosse convocado para a seleção do Felipão. Chegou depois, embargando uma certa timidez, sem querer ocupar o espaço de ninguém. Mas o lance é que o futebol que ele joga ocupa muitos espaços. Pela versatilidade eu diria que quase todos os que existirem em campo, menos o de goleiro. Mas nunca quis competir com os companheiros de grupo. É um tipo do bem.

Nesses casos é preciso que exista um treinador que ponha ordem na casa, que limite os excessos dos mais egoístas, que dispense perebas, que reconheça o valor de jogadores que dão o sangue pelo time inteiro e não pela panelinha. Sem esse tipo de comando, Willian nunca terá o prestígio que merece. Mas - graças ao nosso bom Deus sempre tem um mas - acontecem dias especiais. Hoje foi um desses dias. Ninguém me contou, fui testemunha. E não apenas da Alina Zagitova em atuação de gala. Foi o dia em que Willian foi Pelé. Não fosse pela excessiva humildade, já teria ocupado o posto de protagonista do Brasil. Mas o futebol nem sempre é feito de operários craques.

Sua capacidade de atuação em todas as faixas de campo é assombrosa. O poder de disputa pela bola é bem superior ao da maioria dos atacantes brasileiros. Seus chutes tem melhorado. Sua solidariedade e visão de jogo muito boa. Nem sempre dá certo, há adversários. Jogar na mesma praia que um Neymar é complicado. Aí vira reserva. Ficar pelas beiras do campo, também. Aí acaba sub-aproveitado. Hoje flutuou em campo por onde quis. A liberdade tática é oxigênio escasso nos gramados de hoje. Os esquemas podem oprimir talentos. E essa coisa de família isso e daquilo também.

Tomara que esse craque não passe em branco pela Copa da Rússia. Seria. uma injustiça para o futebol. O país merece um time solto, técnico e incisivo, como são Neymar, Vinícius Jr, como é Willian, principalmente quando vem lá de trás, com tudo e um pouco mais. Um cara como o Nélio ia buscar lá também, com a mesma frequência. E no nível do fair play jogado na Europa, aumenta muito as chances de gol e com eles das vitórias. Todo time merece ter um cara desses.

UM RECORDE NA ARTE DO GELO

Alina is Art and Record at the Same Time

Hoje foi um dia atípico. E ao mesmo tempo meio céu, meio inferno. Enquanto os repórteres brasileiros comemoram uma pontuação acima de 50 pontos de uma brasileira-americana, nos representando nos Jogos de Inverno como se fosse uma medalha e pauta prioritária, o mundo parou por outros motivos menos ufanistas.

Foi uma nota 82.92 obtida por uma garota de 15 anos de idade. Seu nome, Alina Zagitova. O que ela fez com a representação de Cisne Negro não merece palavras, mas apenas um queixo caído, um boquiaberto extasiado, uma certeza sobre a importância da arte em certas modalidades ditas esportivas.

Gostaria mesmo que os parâmetros de julgamento privilegiassem os aspectos mais expressivos e interpretativos da performance. Selados em métricas, perdem a qualidade ainda por ser incluída com maior peso. Para desbancar sua companheira, a Eugênia Medvedeva, contou com o peso da arte. Fiquei com a impressão que em seu transe pessoal Alina não dava muita bola para aqueles números de giros. Creio que para ela se tratava de um mero detalhe.

O que contou nessa performance hipnótica esteve muito próximo do que costumamos assistir em cenas de balé. Também inclui itens claramente presentes na ginástica olímpica. Junte tudo isso e você tem uma escola de virtuosismo difícil de ser alcançada por algum outro tipo de pessoa. Por ali, cada um se vira com outros atributos. Não é o caso desse menina prodígio. Ali a densidade faz acreditar que uma nova era se inicia.

A era Zagitova acabou de começar. Tal qual Usain Bolt, e uma chinesa dos saltos em piscina que vi passar pelo Rio de Janeiro, levando pra casa todas as notas máximas no mundial que antecedeu as Olimpíadas. São fenômenos que me levam a contrariar a máxima rodrigueana sobre unanimidade.
As russas que se encontram pelas bandas da Coréia foram sem a bandeira do seu país. Problemas graves com doping tem afastado muita gente do mundo esporte. As políticas de incentivo a essa prática e as ações da WADA colidem em pontos de vista. Quem perde é o público e os atletas. Felizmente a solução diplomática dos sem bandeira é um caminho que não impede os novos talentos de terem ceifada sua existência para o mundo.

Eu vi a vitória da arte. E gosto dessa ideia como fundamento para o esporte em alto nível.

400 MILHÕES EM AÇÃO, SALVE MARACANÃ

Já não era sem tempo que aparecesse uma decisão que merecesse nosso respeito, por parte da reparação dos cofres públicos espoliados pelo poder público saqueador e uma classe empresarial inescrupulosa ao extremo. Coube a juíza Maria Isabel Pezzi Klein a decisão que determina a devolução dos 400 milhões aos cofres da CEF. Queria eu ter uma empresa de capital social de um mil reais e obter um empréstimo de quatrocentos milhões de reais! Dizia Mário Andreazza, “acima de 20% eu mando prender”, e vimos o PT praticar ágios de 50%, entre outras coisas menos nobres.

Nos tempos da ditadura militar, era comum encontrarmos o povo cantando “90 milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção”. Dentro desse espírito de unidade, veio o tricampeonato, a Taça em definitivo nas mãos da CBF, para acabar virando motivo de chacota, pelo roubo e destino do ouro que a constituía. Derretida ou em pó, anunciava o desmanche em curso, a fragilidade com os valores conquistados, a babaquice sistêmica. Ela se espalhou.

É de se esperar que finalmente a Odebrecht devolva os 400 milhões de reais para a Caixa Econômica Federal, obedecendo a determinação dessa ação judicial. Há partes interessadas e larápios envolvidos. Fico com o lema, “pegou, devolve”. O povo desconhece a política da Controladoria Geral da União. É importante frisar que mais importante que cortar cabeças, como se faz na pedagogia da barbárie das favelas, ou decretar prisão perpétua, o aspecto crucial é investir o poder público com um grau de ameaça capaz de recuperar os recursos saqueados. A CEF foi uma das instituições públicas mais vitimizadas, mas não foi a única. A construção do Itaquerão envolvendo financiamento questionável, tal qual uma série de outros, vai pouco a pouco vir a tona. Não será diferente lá no Nordeste, já citamos isso, o rombo tem proporções continentais. A lambança foi grande, mas dá pra salvar alguma coisa.

Tenho defendido a mesma prática em relação a grosseira concessão feita pelos governantes em suspeição no estado, com relação a reconstrução do Maracanã, hoje impedido pela Odebrecht e seu contrato de servir a população carioca para as atividades esportivas para as quais foi projetado e nasceu. Não que isso invalide o uso do espaço para outros fins. Mas trata-se de uma definição de atividade fim, a não ser desprezada. Os episódios de notória monstruosidade seguem na batuta do cinismo e da tática do João-sem-braço. Todos os envolvidos fingem que não viram, que o assunto não lhes diz respeito.

Enquanto isso, vemos os grandes clubes cariocas, Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense, largados em disputas insanas, que servem apenas como cortinas de fumaça, que desviam o foco daquilo que seria o mais relevante a ser feito nesse momento pela imagem do esporte carioca: a retomada do Maracanã.

Creio que a ação judicial envolvendo o uso do dinheiro da Caixa Econômica para construção do Itaquerão poderá servir como termo de referência para iniciativas eficazes em casos até mais graves, como o Mané Garrincha, Maracanã, entre outros existentes em estados da federação envolvidos nesse verdadeiro escândalo de abuso quanto ao uso de recursos públicos e subseqüente desvio de finalidade. Nem entrarei no mérito quanto a necessidade de tantas obras - que pessoalmente considero 50% dispensáveis dentro de um conceito de otimização de recursos e de logística para a Copa de 2014 – e que sabidamente se acoplava com o mapa das eleições.

Um país desses, com eleições a cada 2 anos, agora financiada com dinheiro da população – decisão corporativa de sindicatos e classe política – insiste em conspirar para não construir um regime democrático de qualidade mínima, fazendo assim coro com militares interessados em algum comando mais amplo que o da caserna e ditadores civis, assemelhados aos que encontramos nos regimes de fanatismo religioso medieval ou pré-histórico. Assim avança a barbárie.