A URUBULÂNDIA E A MÍSTICA DA CAMISA 12

Quem já foi a Miami sabe quais são os paradigmas daquele entretenimento. A Disneylândia é uma Ilha da Fantasia. Os personagens emanam seus passos encantados e as crianças encontram ali as maiores atrações e sonhos. Nada a acrescentar, expectativas muito acima do imaginado, magia pura.

Urubulândia. É possível que ao cunhar esse termo eu tenha sido um tanto quanto exagerado. Não há nada de mágico naquele lugar, até bem localizado, a Ilha do Governador tem fino trato e tradição. Mas olhem para aquilo. Não se compara a um estádio de grife, não tem termo de relação possível com aquele que já foi o maior do mundo.

Sei que a mesma voz solitária que defende o Maracanã como o estádio para os grandes times cariocas é ressonância daquela que em 2014 achava um absurdo as modelagens que na prática elitizam e restringem o acesso do torcedor comum aos equipamentos esportivos de massa. Nada se compara a uma onda popular de pulsação diferente, como a nação rubro-negra. O novo flamenguista gourmet foi picado pela boca das piranhas faladeiras. Ouviu e acreditou na ladainha fácil de uma diretoria convencida e convincente para a plebe, de que o melhor para o time é jogar na Ilha da Fantasia que criaram.

Não é verdade. Mas existem lendas. E a lenda criada era de que o caldeirão tornaria como passe de mágica o Flamengo imbatível em sua "nova casa". Mentira. Lá vamos nós para dois jogos com derrota e empate, justo ali, na Urubulândia. Caiu o mito. Esse mesmo repetido por Diego, porta-voz dos cartolas e recheado de credibilidade, mas com futebol muito aquém daquele que se espera dele e do elenco. A penalidade decisiva de hoje não é crucial. O importante é apresentar um futebol destacado, o que não vem acontecendo.

Há outras inconsistências na situação esportiva do país. Vejam por exemplo os investimentos feitos no Centro Olímpico da Barra da Tijuca. Encontrei hoje uma amiga olímpica que me informou a suspensão de atividades da paralimpíada em Deodoro, por falta de verbas. Ali já estavamos sendo torpedeados, apenas fizemos de conta que nada acontecia, pois visitantes na casa, melhor não dar vexame.

Assume um novo Prefeito. Nenhuma providência tomada no sentido de construir um Calendário para utilização dos Equipamentos Esportivos, do legado Olímpico. Uma oportunidade única. Em lugar disso, o que vimos acontecer em pleno inverno brasileiro? Enquanto isso, o Atlético Paranaense, com seu campo de gramado sintético, também reformado na época da Copa do Mundo, desloca partidas de futebol para alojar naquela cidade o Mundial de Volei. Sabe aquelas histórias feitas para dar errado? Somaram várias. Saiu prejudicado o time com mando de campo no estádio, mas não foi o único. Fiquei me perguntando, como, o Rio de Janeiro, após todo o investimento feito para acolher competições internacionais, com equipamentos validados pelo funcionamento quase perfeito nas Olimpíadas, não foi o anfitrião desse mundial.

Essa pergunta não demorou a ser respondida. Vi o circuito de F-1 sair dessa cidade pelas mãos de um Prefeito incompetente, sem visão e que politizou a permanência do evento por aqui. O Marcelo Alencar só conseguiu entregar aos paulistas e a Interlagos o maior circo automobilístico do planeta. Um idiota do ponto de vista da visão estratégica.

Creio que temos vários "Marcelos" desse nível espalhados por aqui. Esse planejamento nas coxas, se repete após quase trinta anos, já que a última corrida de F1 no Autódromo de Jacarepaguá foi em 1989. Não se trata aqui de encarar o lugar como tendo uma cabeça de bode enterrada, ou amaldiçoado por Deus. Pelo contrário, aquele é um dos pontos mais lindos da Cidade e agora, com todas as obras de infraestrutura se tornou um luxo para exercício de um grande potencial esportivo adquirido e inalienável.

Que objeções haveriam portanto para que o Mundial de Volei acontecesse nessa que foi a cidade sede da última Olimpíada? Nenhuma, apenas e tão somente, a incompetência que interdita estádios de futebol para realizar eventos de volei, melhor instalados na melhor estrutura do país. Falta uma mentalidade estratégica, coesa, aplicando inteligência nos assuntos dessa natureza. Não por acaso estamos aí enfrentando o falso dilema sobre torcidas organizadas. Não por acaso, deixamos escapar oportunidades como as de utilização plena de capacidades produtivas recém-fabricadas. Uma verdadeira insanidade empreendedora.

A Urubulândia faz parte desse folclore de baixíssimo nível, introjetado de modo pernóstico por uma direitoria de lógica unilateralmente financeira. A arapuca montada na Ilha não pode ser comparada em qualquer dimensão que seja, aos benefícios de se utilizar o Maracanã. O maior dos benefícios, atender as crianças, idosos e portadores de deficiência, que naquelas instalações tem as melhores condições de segurança e conforto, além da adequação. O público de mais baixa renda, com seus trens e metrôs ali, na porta e deixando em casa, desde que as concessionárias trabalhem como manda a lei, disponibilizando os meios necessários ao ir e vir, após cada partida.

Perdemos o Mundial Masculino de Volei no frio intenso. Demos aos concorrentes, França, Rússia, EUA, entre outros, a vantagem fisiológica para aclimatação em um local muito mais apropriado aos nossos adversários que a nossa equipe.

Os argumentos colocados na mesa são apenas as fraldas borradas pelas lambanças derivadas de um despreparo sistêmico, comandado por fatores meramente políticos e egóicos. O caso Eurico é afirmativo dessa necessária desconstrução. Um sistema jurídico desportivo para cuidar de assuntos de natureza criminal equivale ao mesmo que encaminhar um crime hediondo para uma Vara de Família. Não tem cabimento. A esfera pública extrapola em muito os interesses meramente particulares dos donos privados de clubes, estádios, eventos e organizações esportivas. Há um arco muito mais complexo de relações indissociáveis, dado que a sociedade pagadora de impostos está comprometendo recursos dessa origem, esperando também contrapartidas sociais integradas as melhores práticas civilizatórias.

Do contrário, teremos que ouvir calados a pergunta pertinente dos descomprometidos com a causa: esporte para quê?

A resposta bem poderia ser, entre tantas, o resgate do espírito do geraldino, do torcedor que via no Maracanã, saindo da Zona Sul ou dos Subúrbio carioca um motivo para se divertir, nessa nova configuração que bem custou muito dinheiro e cujo retorno vai trazendo pela pura cegueira de diretivas, uma fracassada basóvia, conversa pra boi dormir, esse lero de "nosso lar". Pelo amor de Deus, não apelem para os filmes de Chico Xavier! O espírito que vos fala é o da 12a camisa, que sempre habitou o nosso templo do futebol e de lá não sairá.

PREVENIR OU REMEDIAR PRA QUÊ?

Vou escrever esse ano provavelmente pela décima vez, sobre o Maracanã. É provável que agora comecem a aparecer aliados. Já na véspera do Vasco e Flamengo, o Juca Kfouri afirmou que o Maracanã havia se tornado um Elefante Branco. Ele copiou a frase de uma série de editoriais e cometeu um erro de perspectiva histórica grave, mas pelo menos fez a crítica ali, sem medo. Ouvir o Eurico afirmar que pediu a PM que fizesse o jogo com torcida única em São Januário e que todos os jogos do time deveriam acontecer ali foi uma desculpa esfarrapada para o grau de autoritarismo de suas opiniões, impostas aos subordinados mas não a sociedade. Ao levar para o campo extremo aquilo que deveria ficar no campo de sua opinião pessoal, colocou pessoas inocentes em risco. Isso não tem desculpa, que veio tarde demais para os problemas desnecessários gerados pela sua arrogância e falta de respeito pelo ser humano.

O que acontecerá agora? Muito simples meu caro Eurico. Graças a falta de habilidade para lidar com o assunto, e levar o jogo com o Flamengo para o Maraca, coisa fácil e simples, bastava querer, o Vasco fica de forma recorrente, na mira da polícia, da imprensa, e botar a perder todo o marketing positivo feito para mostrar um clube muito mais bem cuidado, destrói a imagem em uma fração de segundos. Poucos viram a reforma da piscina. Mas o mundo inteiro viu o caos completo desse sábado, com crianças e mulheres desesperados no meio da confusão, desnecessária, criada por tomadores de decisão voltados para seus próprios umbigos. O Vasco não é o único clube vítima dessa doença.

Na verdade, não são apenas os dirigentes de clube de futebol cúmplices ou omissos para com cuidados mínimos sobre o assunto segurança nos estádios e decisões correlatas no período pós-Copa do Mundo. Nos foi ensinado como fazer. Mas insistimos em não lembrar como. A imprensa tem grande parcela de responsabilidade nisso, por se manter omissa, dado que é sócia e parceira e portanto impedida está de realizar suas críticas. Parabenizar a equipe Sport TV pela ação humanitária é uma coisa. Isentar o baixo nível da discussão é jogar pra debaixo do tapete as omissões sistemáticas de quem não enxerga um palmo adiante do nariz. Semana passada, conversas sobre o Maracanã e sua obsolescência, porque não estádios menores, e uma porrada de blá, blá, blá de quem não entende absolutamente nada de segurança em eventos. Não aprendemos nada e aí ficam ali, olhando o desastre acontecer.

Tragédia anunciada? Pior. Posso garantir que isso é tragédia ENCOMENDADA. Desde os tempos de Roberto Dinamite, me incomodava muito a noção de que alguns dirigentes se colocaram a partir de um dado momento contra o Maracanã. A coisa piorou.

Diante desse quadro de pobreza espiritual, intelectual e moral desses que opinam e comandam o futebol, vou de outra vibe. Ou respeitam o torcedor, ou vou assistir boas peladas de futebol. É da ordem do inacreditável que o Brasil tenha pago a quase reconstrução do Maracanã para que o mesmo não seja utilizado. É mais grave ainda que times de futebol que nasceram e cresceram para o mundo, graças as dimensões do Maracanã, como um vetor determinante para a diferenciação do que acontece no Rio de Janeiro como espetáculo, tenhamos que ouvir tanta babaquice junta.

Estou pasmo com a falta de tudo. Parte omissa da imprensa, essa mesmo que não fez qualquer objeção a razoabilidade das escolha do local para a partida Vasco e Flamengo, apareça agora para condenar e o pior, pedir a punição e interdição de São Januário, que tem o seu valor, o seu momento e o seu lugar para ser útil ao Vasco da Gama.

Tiro no pé, reincidentes, não estamos aprendendo nada, só regredindo, graças a essa completa falta de tudo. O Ministério Público deve fazer um aprofundamento dessas questões. É claro que ter um Estado sem qualquer comando, impede a chamada em caráter emergencial, do Governador inexistente, para dar um jeito de uma só vez na situação em que a Maldição da Odebrecht deixou o maior templo do futebol de todos os tempos. O nome dele é Maracanã. Mas até isso tentaram mudar.

O espetáculo assistido é inaceitável. Mas gera lucro. Alguns saem ganhando, no curto prazo. O espetáculo que assistimos era absolutamente desnecessário. Facilmente evitável, desde que quisessem. Infelizmente vamos ter que ouvir as abobrinhas de gente que vai agora dirigir suas cargas para que a punição tome o lugar da inteligência e da prevenção.

Equipes jornalísticas que fabricam "salvamentos", num tom completamente sensacionalista não servem a qualquer propósito de utilidade pública. Assistimos hoje, o resultado do desserviço para com a sociedade e com o futebol carioca. Não dá para deixar nas mãos desses manés a responsabilidade de nortear soluções. Os mais preparados foram afastados da situação-problema. Tem muita gente ganhando com os desastres no país.

Willian Cardoso surfando muito na Africa do Sul

Foto: Kelly Cestari / Texto: Vladimir Cavalcante
Trazendo o segundo lugar para os brazucas, não decepcionou.

CEM ANOS DE JOÃO SALDANHA

Cresci olhando minha bela prima Sandra De Sá, apaixonada pela estrela solitária. Em comum com João, além do Botafogo, o amor pela Portela. Nunca duvidei da sua dedicação ao glorioso, as mulheres também gostam de futebol. Falta espaço. Já com papai era bem diferente. Fazia questão de anunciar sua chegada nas vizinhanças da casa, apertando desavergonhadamente a buzina com o hino do Botago do seu fusquinha azul. Era estranho ver um flamenguista com buzina de um time adversário. Mas para ele e muitos outros torcedores do bom futebol, não havia diferença. Encontrei vários rubro-negros das antigas no Maracanã recente, que iam ver Flamengo x Botafogo pelo prazer de ter um Garrincha deixando uma fila de jogadores de seu próprio time sentados no gramado.

Mas o dono do fusca carregava com orgulho, além da afinidade pelo futebol - não tinha como ser diferente, vizinho de um Canário que figurou na seleção brasileira de 1956 e campeão pelo Real Madri - a filiação no PCB. A admiração e amizade pelo Saldanha deixaram grandes marcas a serem relembradas com a leitura diária antes de dormir da obra "João Saldanha: Uma Vida em Jogo", o melhor trabalho de pesquisa sobre essa figura lendária. O benefício da leitura depende do interesse pelo objeto da mesma.

Nos tempos do João, o politicamente correto ainda não havia sido inventado. Até porque ele representava o incorreto, em todos os sentidos. E isso faz toda a diferença. O sentido de auto-censura estava um pouco longe de ser incorporado ao modo de se fazer jornalismo. A ditadura das redações não ocupava o lugar hegemônico dos grandes veículos de comunicação. Só mesmo nesse contexto para assistir um livro de crônicas como "Os Subterrâneos do Futebol", coleção de histórias pela caneta do botafoguense João Saldanha. Corre o risco de ser acusado de "imprensa marron", até pelos que nem sabem exatamente o significado da expressão.

Para muitos inimigos e psicanalistas, João era um mitômano. Mas o que é possível dizer de um cara que foi realmente um mito, para esses que não passam de uma mediocridade inexpressiva, buscando projetar-se pelo reflexo da luz de um singular? A caneta de João Saldanha tinha endereço certo. Em tempos bipolares e de extremismos, ele sabia de que lado estava. Era o que se chamava na época de comunista de carteirinha. Alcançou o prestígio e liderança nesse território ideológico, carregando consigo todas as idiossincrasias, naturais em humanos da comuna.

Seu modo de olhar para o preconceito, fosse ele o racismo ou a orientação sexual dentro das fileiras do futebol primava pelo real. Se o Chicão era um jogador negro do Bonsucesso, jovem, saudável e bom para a sua zaga, porque não contratar? Enganar a diretoria, fazendo-a crer que o negão era louro e quase ariano, apenas um detalhe. O importante era que jogasse bola e resolvesse a parada. E se o fulano ou beltrano gostassem de se beijar? Qual a importância disso para efeito da qualidade futebolística apresentada em campo? Nenhuma. Seu pragmatismo se servia do real como parâmetro. Não que isso fosse influência das leituras sobre o materialismo histórico. João era um sábio, com fórmulas próprias.

Nunca houve no Partido Comunista Brasileiro - ou em qualquer outra dessas filiais em tempos de Guerra Fria - espaço para o pensamento político autônomo ou para a crítica mais contundente. Como qualquer outro, João fora um refém histórico desse alinhamento automático "em favor de um coletivo". Eram outros tempos. Hoje esses princípios soam defasados, a ultrapassagem é necessária, esgotou-se uma forma de pensar e de agir. Os cem anos da Revolução Russa e os cem anos do nascimento de João Saldanha se encontram lá atrás, no ano de 1917. O que diriam um para o outro, numa esquina de Bangu?

A VENUS DE MILO COM GAVETAS

Em plena Copa das Confederações, em território russo, não se pode duvidar da beleza no futebol. É de se estranhar que a televisão, por questões relativas aos fortes padrões de geração de imagem, abra mão de mostrar as beldades daquele lugar tão diferenciado quando o assunto é estética. Não que ela não exista em outros lugares, mas é que ali ela tem seu lugar sagrado respeitado até pelos mais grosseiros líderes e ditadores. É um aspecto inerente ao habitat. Venus poderia ter nascido por aquelas bandas, mas sua gavetas insinuadas por Dali foram aparecer justo na Urubulândia.
Sua fonte original de inspiração tem sido objeto de dúvidas de todas as partes. Seria Venus realmente Venus? Nunca saberemos. Seria o amor verdadeiramente amor? Insondável coração. As tentativas de se representar a beleza e o amor, esbarram no gosto de cada um. Foi assim na Ilha do Urubu, que pessoalmente considero de péssimo gosto. Mas os resultados brilham mais que todo o resto da obra.
A releitura de Salvador Dali, ao realizar a Venus de Milo com Gavetas é uma obra que já passeou pelo Rio de Janeiro. Uma releitura feita pelo surrealista espanhol, que apanhou na sua relação com conceitos freudianos o conceito de gavetas para explicar "gavetas secretas", investigadas por psicanalistas ou interrogadores de regimes ditatoriais, como vimos no filme "Amor e Revolução" - título em inglês "Cologne" - tratando de um amor sobrevivente em tempos de Pinochet e choques elétricos no Chile.
Não se pode duvidar que a bola ncontrou uma dessas gavetas insondáveis de um dos melhores goleiros do campeonato. O Santos se salvou por suas mãos de uma goleada. Nada fez, nem um chute a gol ameaçou o time rubro-negro. Domínio absoluto. Tenho dito repetidamente que um time começa pelo goleiro. Sem ele, combates equilibrados, entre forças equivalentes acabam dando ao adversário o melhor resultado, sempre.
O chute colocado de Cuéllar entra para a história. A construção da jogada contando com a presença do Vinícius Júnior, patinando em um campo estranhamente molhado, me deu a impressão que não avisaram a ele sobre as condições nas quais jogaria. Afinal o mando era do seu time! Paspalhices acontecem e o garoto se espatifava em campo, num Rio de Janeiro em dia sem chuva, onde os dois guarda-chuvas comprados serviriam apenas para iluminar de forma adaptada um estúdio em vias de ser inaugurado. Foi dele o passe para Guerrero, o melhor pivô em atuação no Brasil. Apanha muito, é válvula de escape para defesas acuadas.
E as gavetas? Foi estranho assistir a coleção em apenas uma partida. Vindas de gente não escalada para fazer delas a consagração. Uma mão na próxima fase, a melhor situação, claramente conquistada após o gol que merece ser chamado de obra de arte, no todo ou na parte. Cuéllar, o colombiano até aqui escondido por jogos e jogos, entra desde o início para aumentar significativamente o poder defensivo do time, muito mais agressivo nesse aspecto, e fechar o caixão de um Santos sofrendo de muitos males, mas sempre perigoso, que dessa vez não apareceu em campo para jogar.
Se para Dali e Freud, apenas a psicanálise seria capaz de abrir as gavetas secretas de Vanderlei, essa foi a vez de um colombiano as abrir e bagunçar tudo. Tudo pode se esperar de uma partida de futebol. Mas o Flamengo só perde para si mesmo na próxima partida desse mata-mata chamado Copa do Brasil.

E LÁ ESTAVA A CASA DA RÚSSIA

Casa da Rússia

Vladimir Cavalcante / Vladimir Cavalcante
Instalada na Copa do Mundo da FIFA de 2014 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

Nós na condição de anfitriões de pernas abertas. A Lei da Copa criou dois estados de exceção, sem que isso significasse qualquer instauração de ditadura militar. Em primeiro lugar, deram a FIFA de Sepp Blater o direito realizar todo o comércio em território nacional sem pagar impostos. Esse é o pedido de todo empresário nacional e de quem frequenta supermercados. Mas aí não. Foi só para os mui amigos. Papo de Capo da Cosa Nostra.

A segunda exceção não exigir prestação de contas. Tudo correu frouxo mesmo. É provável que isso tenha inclusive confundido quem estava cuidando das obras da Odebrecht e das demais construtoras no período. Sinceramente, da perspectiva do empresário nacional, uma sacanagem deixar a FIFA livre de amarras e eles amarrados as licitações, a tomada de preços, rigor da lei, etc. Por essas e por outras que ninguém deve ter levado muito a sério essa história de tomada de preços.

Afinal, qual a diferença entre um estádio de 1 bilhão ou de 10 bilhões de reais. Os números eram aqueles que você quisesse. Estava tudo liberado. E lá estava eu na Casa da Rússia. Por favor não confundir com a casa da russa, porque essa era outra; e ruiva. Todos os países presentes se instalaram pelo Rio de Janeiro nas Olimpíadas. Com maior ou menor glamour, deram seu recado, deixaram seus cartões de visitas para atrair negócios e pessoas. O Turismo é feito disso e as Olimpíadas no Rio de Janeiro eram para ser uma grande oportunidade. Antes disso a Rússia, já se preparando para receber as seleções que irão disputar a Copa de 2018, trouxeram para o MAM a gastronomia, festas, eventos com times de futebol de lá, muitas coisas que não pude aproveitar pela intensidade de participação na Copa do Mundo em si, no interior dos estádios.

É um tipo de evento cruel. Tudo acontece num piscar de olhos. A Rússia piscou pra mim e mal deu tempo de fotografar para olhar retrospectivamente três anos depois. Um material feito as pressas, sem a qualidade além da jornalística, mas com boas histórias e encontros. Sobreavoar um território em missão de reconhecimento não proporciona o mesmo prazer de uma pousada numa cama embaixo de um belo cobertor. São sensações distintas. Nem sempre dormimos embalados. Por falar em embalos, não é o bonde nem o trem bala. A Moscou dessa Copa das Confederações tem mesmo é uma Locomotiva como time. Quem sabe um dia eu faça o mesmo trajeto de um trem para a Finlândia, daquele romance do Edmund Wilson?

PRESENTES DA FAMÍLIA BRILHANTE

Tudo bem que os Reis Magos seguiram uma estrela com seus presentes no alforje, cruzando longas jornadas para encontrar o destinatário. Nessa segunda-feira, não precisei voltar no tempo, apenas fui agraciado pelo destino. Foram muitos os presentes, justo nesse dia em que soube da morte da irmã de minha avó, chamada por todos de "tia Mena". Um bom pedaço das histórias que ouvi da vovó eram dirigidas aquele lugarzinho, bem ali em Alagoas. Partiu aos 94 anos e deixará saudades. Nessa mesma noite fui sobressaltado por dois pesadelos, o que é muito pouco comum. Os dois de um realismo difícil até de acreditar. Foi então que vieram os presentes.
Já na hora do almoço, entusiasmado ao ver o filme sobre a obra de arte que foi o álbum Sgt. Pepper's, dos Beatles. Não havia como não levar o material para o amigo Sergio Bylucas Brilhante - o Brilhante Master - e poder dividir com ele e com sua mãe pianista, Dona Nina, aquelas reflexões sobre criatividade, genialidade e inovação no campo das artes, em especial no campo da música. Logo após o almoço, fui surpreendido pela localização do filme pelo amigo, no catálogo do BIS. Aí ficou tudo mais simples, tradução bem feita, e qualidade máxima das imagens, avançamos aí na certeza de que nossas aulas de piano nunca mais seriam como antes. A absorção dos conceitos clássicos, somados ao banho pop e a espiritualidade mixadas ao tecnológico, encontrou na platéia reunida na sala a atmosfera ideal para o aproveitamento de um roteiro magnífico e um apresentador excepcional, Howard Goodall. O primeiro presente terminou com uma dessas coincidências que só acontecem uma vez na vida. Bylucas estava com a camisa, produzida por ele, dos Beatles. E essa já era a segunda vez em que entravamos em sincronismo via suas criações. A outra vez foi quando fui visitá-lo e levar a notícia de que havia ganhado um Prêmio por Participação Especial no Festival Internacional de Pipas Artísticas, na Praça do Canhão, e ele me recebera com uma camisa com estampas onde pipas eram o brinquedo das crianças. Esses dois momentos já fazem parte do folclore em que nossas histórias se transformou. Quem não testemunhou vai dizer que é mentira, mas é apenas algo do campo do oculto, do sobrenatural, do que mora entre o incrível e o inacreditável.
O segundo presente teve pausa para lanche, um pouco de Grunge, com Nirvana e a dor humana, Dona Nina por educação acompanhou um pouco, mais interessada nos aspectos semânticos e espirituais da palavra Nirvana, do que propriamente na música da banda de Seattle do Kurt Cobain. Ela desconhecia minha afinidade com o grupo, e que até havia distribuído LP's deles em festas juninas, na época com apoio do Folha de São Paulo. Na primeira oportunidade, voltamos para a série Cosmos, disponível na NETFLIX, onde salta aos olhos a qualidade da dublagem, que permite a Dona Nina - mesmo ainda me devendo o exame de audiometria - ouvir nitidamente cada palavra. Parece mesmo que cada palavra que vem do Cosmos entra na alma dessa senhora de uma idade já bem avançada, mas que continua para nós uma verdadeira criança. Nesse capítulo 5 da série, enveredamos para estudar o que está escondido na luz. E isso a sensibilizou sobremaneira, pois acabara de fazer uma cirurgia de catarata, exatamente para recuperar a visão de seu olho esquerdo. O astrofísico e âncora da série dessa feita foi conhecer a Abadia Beneditina na Bavária, lugar que já foi detentor da melhor tecnologia para produção de lentes e espelhos do mundo. Foi numa daquelas salas que nasceu a fusão da Física com a Astronomia. Tenho certeza que apresentador chorou ao pisar naquele lugar sagrado.
Dona Nina continuou curiosa, pedindo a anotação de frases de uma rara beleza, dessas que não encontramos em roteiros de novelas da Globo. São para outro bico e sensibildade. Esse presente terminou com a apresentação sumária de conceitos que a faziam refletir sobre o que significa enxergar, o que são afinal as cores, como elas se mostram visíveis aos nossos olhos, entre outras questões, que levaram-a até mesmo a questionar a qualidade dos prismas artificiais colocados nos seus olhos, no lugar dos antigos. Sua preocupação para saber se o material era importado ou nacional já garantia não só que havia aprendido tudo, mas que estava apta a fazer uma aplicação prática imediata naquilo que era de seu interesse imediato. Afinal, só faltava isso para voltar as partituras e aprender as cifras de piano para trechos das músicas dos Beatles! Os dois presentes se juntavam de forma espontânea.
Ao final da noite, a turma toda, e a partida dos Warriors contra os Cavaliers. Foi um combate honroso, os juízes não deixaram o nível cair, tudo esteve por um fio já desde a quarta partida. A verdade é que a partida decisiva foi a 1a em casa, onde o Cleveland desperdiçou a chance de ganhar, morrendo na praia desnecessariamente. É claro que Lebron sabia disso. Lutou sozinho nesse último suspiro, honrou o brazão, carregou o piano nas costas, com um Irving heróico e machucado e um Kevin Love muito abaixo do necessário para provocar mais uma partida. Foi com essa família que assisti a Final do NBA de 2017, que consagrou o Golden State campeão com sobras e méritos. É que Lebron é tão grande que vale por qualquer time. Mas o seu time precisa melhorar muito para ser campeão por si mesmo. É sempre bom ver gigantes jogarem, mas é melhor quando o conjunto também aparece. Destaque absoluto na narrativa dessa história sobre basquete para Durant, sem o qual a festa não teria o menor sabor de gratidão. O manto sagrado do Cosmos é dele e da Família Brilhante, a quem devo três.

Três vivas aos Brilhantes, estejam onde estiverem!

INDIVIDUALMENTE MELHORES X MÉDIAS COLETIVAS MAIS ALTAS

O basquete é um jogo essencialmente coletivo. Você pode até dar mais valor aos pontuadores de pico, mas o que vai contar mesmo é a soma de todos os pontos. Sabendo montar o tabuleiro de xadrez, basicamente o que precisa ser feito? Anular ao máximo os melhores do time adversário ao mesmo tempo em que cria condições para garantir a pontuação do maior número de seus jogadores, por mais limitados que sejam. Parece simples, mas não é. Envolve egos e muita adrenalina. Muitas vezes é difícil equilibrar. A consistência defensiva do time do Cleveland é admirável. Somente um time como esse pode impedir o ataque avassalador do Golden State de destruir um jogo, com a facilidade de quem está tirando o pirulito de uma criança.

Hoje, até aonde a seriedade prevaleceu, mesmo com a ameaça de placar se alternando, havia um cheiro no ar de vitória. Ela se cumpriu até os minutos derradeiros. Mas de repente, o time da casa deu uma desconcentrada, entrou em euforia, não administrou a vantagem a poucos metros da linha de chegada, começou a fazer gracinhas em quadra, reproduzindo o estilo do oponente e se desequilibrou pelo tempo necessário para cair desnecessariamente derrotado. Menos por mérito do Golden, que a rigor não foi melhor do que o que todos já sabem que é. Os mais capazes do Cavaliers renderam o que se espera deles. Ainda achei que Irving poderia ter dado um pouquinho mais no fim, brincou e isso pesou na balança. Mas Kevin Love e Lebron estiveram à altura de suas marcas. Foi no fio da navalha, doeu na carne, deixou um gosto amargo na boca e não chegou sequer a dar aos vencedores o sentimento de vitória. Olhei para eles e vi alguma coisa estranha. Uma espécie de pássaro negro Hitchcockiano no ar.

Já tinha uma ideia básica dos números. Voltei para casa e confirmei o que sem anotar vi. Apenas 5 nomes do Cleveland nos quesitos estatísticos Pontos, Rebotes, Assistências, Bloqueios, Roubadas, Turnover contra 6 nomes do Golden State. Os números se espalham mais quando falamos do time da Califórnia.

VAI SER BURRO ASSIM LÁ NA PRAIA

Enquanto o Flamengo jogava, e já na escalação, olhando o conjunto da obra, não era possível acreditar em muita coisa que não fosse Deus. Sim, essa é a fórmula do técnico improvisado Zé Ricardo, que no ano passado, em coletiva com a imprensa após um jogo pífio no Campeonato Brasileiro afirmou que a solução então era algo tipo, rezar, torcer para que as coisas melhorassem. Ali ficou claro que o time não tinha exatamente um técnico, no sentido mais específico da palavra.

Os sinais estavam bem anunciados. Mas é sempre melhor manter a educação e um bom relacionamento com os atores do espetáculo para conseguir sobreviver no meio da imprensa. Mas o que vimos no Recife foi uma vergonha. Qual o time que joga contra o rubro-negro que não sabe que apertar a defesa é sinônimo de passes e gols? Só quem não viu o time do Zé jogar.

Por duas vezes isso aconteceu, resultando no passe de Muralha. Na primeira, a bola devolvida ao goleiro encontrou essa figura estranha acomodando a bola com a mão. Resultado? Dois toques dentro da pequena área, perigo de gol, desespero e bola pra fora, pela lateral. Mas Muralha não estava satisfeito com a lambança da noite. Resolveu fazer mais uma de lambuja. Quem acompanha os aquecimentos dos goleiros no campo sabem que estes profissionais treinam a saída de bola em modo automático, dezenas a centenas de vezes por mês, e a cada momento que antecede o jogo. O que o Muralha fez foi um passe, desses que a defesa de um bando, até inicialmente ajustado pelo Zé Ricardo, vem dando aos amigos do futebol, entregando o ouro. Foi só mais uma, nada de novo.

A novidade foi que ao assistir o jogo ao lado de uma torcedora flamenguista com mais de 80 anos, ficou claro para ela que tudo aquilo não representava a visão de time que o padrão de exigência dos que viram o time ultrapassar os 100 anos exigem. A linha de corte da torcida que viu Zico entre outros craques é muito alta. Por isso é difícil jogar nesse time. Não basta ser bom, razoável, ter altos e baixos. As estirpes que passaram pela Gávea eram da mais alta linhagem e movidas a resultados.

Não que eles não possam ser alcançados pelo Zé Ricardo e seus comandados. Mas nesse caso, só por milagre, palavras e crença do próprio. Como não sou movido por eles quando analiso futebol e esportes em geral, prefiro técnicos que tenham a habilidade de construir e pavimentar o caminho para conquista de títulos. Não é o caso dele, na opinião da torcedora, que me emprestou a frase: "vai ser burro assim lá na praia". Essa ela tirou da cartola. Procurei a expressão no Google e nada. Ela antecede a nomenclatura mais chula de nossos tempos. No passado, a torcida era mais educada e menos afeita a palavrões. Há expressões equivalentes que encontrei na pesquisa. Deixo para vocês encontrarem.

E O BAILE REAL CONTINUA

Foi um baile do Real. Os números, sempre eles. Os números, nem sempre eles. A insistência em contrariar os números. A certeza fabricada pelos números, feitos para te convencer sobre sua inferioridade. Essa, que começou com as escritas amaldiçoadas carregadas como cruz pela Juventus, eterna vice da Liga. Seis, sete, oito medalhas de prata? Perdi a conta. Os números podem te fazer perder. As vezes é apenas uma vantagem econômica. Noutras uma superioridade no scout, chute contra chute a gol, escanteios, desarmes. Chega um ponto em que a diferença pode chegar até a ter um jogador a menos em campo.

Mas o que acontece quando é tudo isso junto?

Goleada. A Juventus caiu de quatro, diante de todos os números e lances feitos, dentro e fora do Baile Real, em que não poderia faltar Bale, num desses trocadilhos infames. Quem não foi convidado pra festa? James. O ressentido Zidane exerceu toda a sua frieza e elegância. O colombiano "jamais" esquecerá. Outro trocadilho infam desses e serei demitido por mim mesmo.

Não tinha cabeça de bagre em campo, mas alguns tremeram nas bases e bolas bobas se entregaram com o desejo das donzelas virgens em busca de um primeiro consolo. Nesse território sórdido, o oportunismo e técnica do melhor meio de campo, desconectou a equipe italiana, já ferida mortalmente por um gol que nem precisava ser tomado.

Nunca gostei muito de ver jogadores que jogam na defesa e se viram de bunda para quem chuta na direção do gol. Acho mais eficaz quem se joga de frente, sem medinho da bola na cara ou no saco. Ali faltou o que já não sobrava. A monotonia de um ataque contra defesa já dava sinais de que aquela história não terminaria como um conto de fadas para o velho Buffon.

Uma desviada nos calcanhares do eternizado Khedira, responsável por tirar da jogada o melhor goleiro da temporada Champions, depois de Navas, que fez chover em diversas partidas. Nessa não foi necessário. A partir dali, tudo parecia dar errado. Mas deu certo, para que o baile se consumasse. O juiz, distraído, não viu a malícia da encenação de Carvajal. E o pobre Cuadrado, em tarde desgraçada, já entrou perdendo. É difícil saber como um atleta vai se comportar num cenário adverso. O equatoriano poderia ter sido escalado de saída, dando a Daniel Alves muito mais liberdade para agir e uma ofensividade que faltava. Bolas desviadas, faltas não tão duras, afinal patrimônios valiosos devem ter no juiz o fiel da balança para suas preservações. Não que possam impedir lesões. Mas podem coibir, com a pena máxima na mão.

Como disse antes da partida, alguém tinha que passar a régua e furar o bolo. Com sobras, o Real Madri chegou merecidamente a mais uma conquista da Champions, que hoje, com mais de 1 bilhão de espectadores no jogo final é certamente a partida de futebol mais importante do planeta. A fórmula de jogo único é muito interessante e por sinal retira inclusive algumas vantagens de se jogar ao lado da torcida mais calorosa. Leva apenas o público especializado, na forma de vida ou profissionalmente. O dinheiro é a mola mestra dessa fórmula de se modelar as competições, e o futebol europeu é de longe, o maior exemplo disso.

Por aqui, em lugar de um Modric, desarmando, armando, se desvencilhando e assistindo, teremos que nos contentar em ver em campo um jogador tipo Márcio Araújo. E sem reclamar, porque se tirar fica pior. A morte dos craques é o espelho do futebol brasileiro de hoje e de seu modelo de desenvolvimento para o futuro dos negócios lucrativos de seus dirigentes e parceiros empresariais. Há um hiato de visão entre nosso potencial em todas as suas esferas e a realidade. Também levamos um baile. Bye Bye Brazil. Agora é ver quem vai passar a régua em quem, nos jogos da final de basquete americano. Papo pra outra história épica, também repleta de números. Eles acompanham até mesmo o nome da Arena do Golden State. A Oracle é nossa velha conhecida, dona dos Bancos de Dados mais poderosos do planeta. Dona do armazenamento dos números dos bailes.

O PAPEL DAS CONTUSÕES NOS MOMENTOS DECISIVOS

Lá estava o Brasil contra a França. Correndo do trabalho para casa, recebo a notícia de que Ronaldo Fenômeno estava fora de jogo. Foi como se estivesse. E ali perdemos a Copa. Antes de tentar ganhar.

Tem sido assim ao longo da história do esporte. Uma equipe sempre tem suas estrelas. Sem elas, apenas um sistema. Não se conquista nada sem elas, mesmo que o lado coletivo tenha seu peso. Essa etapa final do NBA deixou esse lado das competições muito claro. Os times que perderam jogadores diferenciados levaram balaios de gato para casa.

Vejam o caso de Lebron James nesse último confronto com o Boston Celtics. Com uma queda vertiginosa de rendimento, surgem inúmeras hipóteses para ter pontuado como se estivesse amarelando, só 11 pontos num jogo. Um dos motivos apontados é a presença de uma dor, acompanhada de uma bolsa de água quente para aliviar a situação. O desconforto muito intenso pode te tirar do jogo ou reduzir sua concentração.

O caso do Flamengo também entra para essa conta. O melhor momento de Diego no clube, iniciando a despontar com chutes certeiros e bem encaixado no grupo, apontava para um time competitivo, mesmo com deficiências defensivas e um Rafael Vaz limitado na função. Sua contusão me deu a certeza de que o time da Gávea não iria muito longe. E não foi.

Não foram poucas as vezes que deixei de ir ao Maracanã por conta da ausência de um jogador que desequilibra, naquele momento da carreira, nas decisões. Lembro-me do Athirson representando meio time, de fora da decisão. Nem pensei duas vezes. Fui jogar minha pelada de final de semana. Maracanã, só vale para ver espetáculo. E quem dá espetáculo é o nome da vez.

Vejamos o caso da final da Champions League desse ano. Por mais que exista uma comoção nacional pelo Real Madri, para mim está mais do que claro, os dois times são extremamente equilibrados, cada qual na sua proposta de jogo. A vantagem da Juventos é que jogará inteirinha. Já o Real, não sabemos. Bale e Carvajal jogam? Isso faz toda a diferença no equilíbrio da força de ataque, alternando a alimentação pela direita e pela esquerda para CR7 e Benzema. Só Marcelo não vai ser suficiente para desbancar a melhor defesa da competição.

Uma vez mais, as contusões, podem também decidir títulos.

A CULTURA COSPLAY E O MSI 2017

Essa onda que é se vestir numa incorporação arquetípica para participar de uma parformance sempre me fascinou. Afinal, a humanidade está condenada a jogar. Como escreveu Huizinga em Homo Ludens, o que seria da vida sem toda essa variedade de representações e regras de atitude?

Sediando a etapa final do MSI, League of Legends, acompanhei catártico as competições com toda a sua carga de emoção. Esses garotos coreanos já são de um outro mundo. Em especial, Peanut e Faker deixam a sensação de que o e-sport tem seus grandes ídolos. Tudo bem que a torcida local era pelos europeus da G2. Mas não seria justo que os tão superiores em tudo não ganhassem.

Olhando para mais longe e para muitos lugares, encontro referências ancestrais que acabam num somatório bem mais complexo nessa nova linguagem que minha avó certamente não entenderia, mesmo que quisesse. Ali há muito de xadrez, no aspecto estratégico e até na presença das torres, só que bem mais ornamentadas pelos recursos de computação gráfica. Há também a presença da psicologia, na origem da construção dos arquétipos que cada personagem da batalha representa com seus atributos e superpoderes.

No lugar de uma equipe de analistas e um jogador no tabuleiro, como os russos e outros jogadores da matemática dos tabuleiros faziam, cinco jogadores em cada equipe, um técnico que procura ter uma proposta mental para se defender e atacar são a configuração das equipes, conectadas por telas de computador, teclados ainda arcaicos, processadores poderosos e com placas gráficas poderosas, capazes de responder na velocidade de um jogo de ação, tático e ao mesmo tempo pensado, só que na velocidade da luz. Os bits e bytes exigem.

Microfones para comunicação, fones de ouvido e concentração, para a conquista de três dos cinco pontos a serem disputados numa final. É preciso ter um bom condicionamento físico.

Barões e conquistas do Nexus são metáforas que somam pontos como num jogo de cartas, para uma vitória.

Quando tudo isso começou, as máquinas de Fighters eram encontradas em Fliperamas, gigantescas, com manivelas resistentes, capazes de suportar a mão pesada dos agressivos usuários. Hoje, a maior parte dos jovens envolvidos são delicados e precisos, a arma principal é o pensamento ágil e o reflexo. Essas mentes possuem geometria espacial diferenciada, já fazem parte de uma outra etapa evolutiva da história da humanidade.

Por detrás de tudo isso, um suporte para múltiplos jogadores e internet. É a computação dominando as formas de brincar e de interagir. Há uma linguagem por detrás dessa linguagem mais operativa. Ela pertence a uma indústria. A Riot Games é a dona desse pedaço da torta. Um país que se pretende participar dessa nova etapa precisa deter pessoas fluentes nessa nova linguagem.

Jogar e inventar jogos, quem sabe um dia?

A TRAVESSIA DO MAR DE SAQUAREMA

Adriano Souza lembra o Surfista Prateado

Numa saída do mar com vibrações perfeitas, o lugar combinou com o personagem

Essa imagem da saída do mar, do surfista campeão da Etapa Brasil em Saquarema me faz lembrar um herói, o Surfista Prateado. Uma figura enigmática, não cheguei a mergulhar na profundidade da sua arquetipia. Me parecia um pouco deslocado e solitário, de uma pureza fora do comum. Que imagem, que fotografia, que momento.

As vezes, você estar no lugar certo e na hora certa faz toda a diferença. Foram três dias de espera. Valeu a pena. Como eu gostaria de ter estado em Saquarema. Estava tão perto e ao mesmo tempo tão distante. Minhas células vibravam desde segunda-feira para que fosse. No ano anterior, na Barra da Tijuca, também assisti pela internet. Eram muitos compromissos envolvendo as Olimpíadas 2016.

Esse ano não, havia liberdade, e o lugar prometia melhores ondas que as obrigadas a serem inventadas na orla carioca. A legião prateada, ou mesmo blonde, merecia mais que fãs. Dessa vez a combinação equilibrada, um bom surf praticado, ótimos duelos, brasileiros em destaque, polêmicas com julgamentos e interpretações, todos os ingredientes de uma atividade que vai ganhando contornos de competição.

E aí, não tem como dar mole. A prioridade é a vitória.

Com o Titã Adriano Souza.

#wsl2017

DESAFIANDO A LEI DA GRAVIDADE

Gabriel Medina em suas manobras radicais desafia a Gravidade

Foto: DANIEL SMORIGO

#gravity

O Surf merece de longe ocupar o Olimpo. O Japão, que poderia ter sido o Brasil, levará mais essa marca para sua casa. Comemos mosca. Com toda uma geração de surfistas excepcionais, era natural que como mínimo de visão, tivessemos mexido os pauzinhos para sediar no RIO 2016, a competição já em modo Olímpico. Continuamos seguidores.

Não obstante, a bateria mais emocionante dessa etapa #saquaremaitauna em 2017 apontou o melhor até aqui da temporada, saindo da água sem saber se havia ganho ou perdido. Um combate brutal, onde sorte e talento se misturam ao clima de tranquilidade. Ainda é um esporte sem marra, sem a distância entre público e atletas. Trocar a Barra da Tijuca, preferida pelos patrocinadores, por uma praia de condições mais apropriadas para o esporte foi o mínimo a ser feito por esse bando de cabeças de bagre, tomadores de decisão.

O Owen Wright, hoje, é o cara.

VINÍCIUS O NOME DO JOGO

Não que fosse um poetinha, um diplomata galante. Pelo contrário, era negro e pobre. Mas isso não tinha a menor importância. Era um garoto-ídolo, desses que o Brasil vai perdendo com orgulho, quando deveria na verdade se envergonhar. Ao abdicarmos de nossa superioridade no material humano, deixaremos de ser a Meca do Futebol para nos transformamos em mais uma nação satélite desse esporte.

O centro, todos sabem e já estão de acordo, é a Europa. E lá vai ele, o Vinícius Júnior, contando antes com o clamor da torcida, a apoiar cada canelada, cada tremida de perna de uma estréia bem diferente da que se espera de um craque, como se viu com Pelé, Garrincha ou Zico. A timidez e a emoção daquele ato inaugural, que o legitimava como uma promissora estrela a qual estaremos condenados a ver brilhar bem longe daqui.

Nosso futebol, falido, que deseja ainda assim, mamar nos cofres públicos para construir mais estádios, para deixar no mínimo, a metade dos lugares vazios, lugares sem marcação. Pouco ou nada aprendemos.

Quando se monta uma estrutura de produção, seja ela esportiva, de saúde ou habitacional, não basta construir os espaços. É preciso ocupá-los, e nesse caso, com aquilo que fará a diferença, que são os melhores exercendo seus papéis. Ao contrário, vamos perdendo nossos melhores, e mais precocemente do que o amadurecimento exigiria.

A realidade de um jogador de futebol distante de sua terra, é na verdade uma espécie de exílio. Mas trará divisas e lucros, para os que participam desse mercado, na condição de donos. A intensificação das transações aumenta as cifras que circularão em torno dessa atividade. Ao olhar para times como o Real Madri, fica claro a preferência do dinheiro do petróleo pelo investimento ali por perto. Se aventurar pelo Brasil é para poucos.

Por aqui, tudo continua muito confuso e complexo. Não se garante nada, mesmo depois de investimentos faraônicos. Ficarão apenas os furos na Lona da nova cobertura do Maracanã. As da Copa do Mundo, com milhões recebidos e não utilizados para o conserto devido - desvio de verbas - e os novos furos decorrentes das queimaduras das Olimpíadas, de um Comitê que se auto-detonou, como previsto, após cumprir sua honrada missão. A queima de arquivos também faz parte do processo.

Sem as estrelas que ornavam nossas praças de guerra, o futebol brasileiro estará condenado a viver na periferia de uma realidade onde poderia ser o protagonista. Mas ainda vamos fazer acreditar essa gente que o país é pobre, coitadinho, e o melhor a fazer é mandar os que aqui seriam indigentes e mal aproveitados para seguir melhor destino lá fora.

Porque não aqui, senhores, porque não aqui? A coisa mais bonita que aconteceu hoje no Maracanã, não foi o Atlético de Minas, o mais forte concorrente ao título, com Fred, Robinho, Cazares, He-man e Cia. Também não foi o Flamengo desastroso, batendo cabeça com volume caótico de jogo e sem inspiração.

A coisa mais bonita dessa tarde de sábado foi ver entrar em campo um garoto de 16 anos para ser abraçado pela torcida, o 12o jogador em campo, que o aplaudiu e foi lá para ver jogar quem poderia muito bem estar na fila dos que receberão nos restaurantes populares o resultado da renda do jogo. Isso sim, foi marcante.

Porque agora é sofrer pelo empate com o San Lorenzo fora de casa, com um time pouco convincente. Que Deus o guarde Zé Ricardo. Hoje você teve seis minutos de lucidez e leva meus parabéns.