UM BRASIL E UMA CERTA ALEMANHA

Lá se vão trinta e seis aninhos. Muitos verões e primaveras, saudosismos de dar inveja ao velho Marcel Proust, mergulhado na luz de Lana Del Rey e suas aflições metafísicas com direito a selinhos e uivos de uma platéia em êxtase. Era essa a sensação no puleiro do Maraca. Chegar em cima da horasempre deixou os incautos nas pontas dos pés. Mas era bem democrático, o acesso menos gourmetizado do que as cenas que assisti na Copa de 2014, em plena Belo Horizonte.

Não há como esquecer a força da escola alemã de futebol. Digam o que quiserem, é lá que moram 4 Taças de Copa do Mundo. Então, de fato existem 3 grandes forças futebolísticas, leia-se Brasil, Alemanha e Itália. E entre elas, a mais promissora, com números de país potência, dominante na dimensão econômica em seu continente, é a Alemanha.
Lá se vão trinta e seis aninhos. A me dizer que toda essa aparente superioridade sucumbiu aos pés de um neguinho da Cruzada de São Sebastião. Para quem não sabe, uma das favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro, fábricando os craques do asfalto. Todos os caminhos bloqueados, Adílio tira da cartola de seu variado repertório uma puxadinha, e encontra Júnior - que ainda não era chamado de maestro, mas sim de "capacete" - numa ultrapassagem além da imaginação-gringa e nessa mistura de ultrapassagem de um lateral com futebol de areia, um gol de placa. A torcida explodiu. E tudo aquilo era apenas um amistoso. Acontece que no confronto entre escolas de futebol não há amistosos que não entrem para a história. E hoje, na vitória pelo mesmo placar, no mesmo mês - quase no mesmo dia - o Brasil deixou sua marca na memória do povo alemão.
Digam o que quiserem. O Muro de Berlim foi derrubado. Não aquele da geografia física, que separou por décadas o povo da de uma Alemanha unificada por Bismarck. Os brasileiros ali presentes cumpriram seu papel, de vencer um obstáculo psicológico, um pós-traumático pesado, jamais experimentado por qualquer grande time da história, aqueles sete gols que calaram o país. A empáfia marketeira exigia um castigo dessa proporção, nós pedimos, os deuses deram.
Na madrugada que antecedeu a tragédia, saí do Rio de Janeiro, acompanhado da amiga do Diário As, uma musa pra torcida brasileira chamar de sua, melhor parceira para uma viagem impossível. Muitos profissionais do ramo esportivo participam de eventos como a Copa com cotas limitadas, jogos pré-definidos, conforme suas nacionalidades, etc. Quando a encontrei, a moça estaria fora da partida entre Brasil e Alemanha. Com meu plano em mãos, fui inclusivo, ela topou, fizemos juntos, e deu tudo quase certo. Estar presente nessa fase decisiva era um sonho pra qualquer um. E nada que o valor de uma passagem de ônibus entre Rio e BH não coubesse no bolso.
Revisitando o Mineirão, onde já havia passado e mapeado território, coube rever os amigos onde as torcidas se reúnem para comer comida mineira de preço bem honesto. Quantas histórias. Combinado estava de entrar. Até ingresso para isso a moça me providenciou. Mas resolvi insistir pelo caminho oficial, e os entraves burocráticos acabaram me levando a uma bela delegacia montada dentro das instalações do Estádio. Não era o único. O delegado me deu a opção de não processar ninguém e voltar para o Rio de Janeiro sem ser preso. Achei a proposta equilibrada e desisti de ver o jogo de dentro do estádio. E deu no que deu.
Acompanhando os dois times, desde o período preparatório, sempre considerei o time alemão favoritíssimo. Fizeram o dever de casa, usando as sandálias da humildade, beijando o chão alheio, atuando no social, esbanjando simpatia e jogando futebol acima da média, coletivo e técnico. Sem gênios, mas com a escola que os qualifica como candidatos atemporais a títulos.
De lá pra cá, uma crise de imoralidades desabou sobre mundo do futebol. O protagonismo do Brasil? Deslizes. Os reflexos na performance de nossos talentos? Relevantes. Não serão objeto dessa conversa. Os cacos da redenção pela busca de paspalhos expiatórios, condenou toda uma geração de inertes deslumbrados por cuecas e marcas de cervejas. Tudo passa, linha dura e enquadramentos, as mesmas roubadas de uma cultura repressiva como solução de crise. Não foi diferente na seleção brasileira do mesmo - e portanto limitado - Dunga. Diferentemente do que vimos, onde a Holanda curtiu e jogou, onde até a Colômbia jogou e brincou, onde a própria Alemanha desfrutou da energia do povo daqui e conquistou sua quarta estrela, o Brasil endureceu, furioso, aplicando o castigo da violência contra os seus próprios.
A virada tinha que vir, merecemos algo melhor. Com o ouvido nas Óperas, atendendo aos apelos sinfônicos, entra em campo, tardiamente, Tite. A reconstrução encontrou seu caminho. Uma sequência que recuperou para a nossa seleção a posição merecida no ranking. Escalar Gabriel Jesus, uma ousadia, jovem e ainda atuando no Palmeiras, só ele e Guardiola pra bancar a briga com os interesses de cachorros grandes. Nós recuperamos um bom padrão de jogo, superior ao de qualquer outro time das Américas, e a posição de número 2 no ranking da FIFA.
Faltava a cereja nesse bolo Pré-Copa do Mundo. E ela veio em dose-dupla. A vitória em Moscou, no estádio onde será disputada a final, diante da fraca seleção russa, e esse gol de Jesus em plena Berlim. Pode parecer pouco, mas é muito. Nós já havíamos quebrado um tabu, em 2016, ao levar o 1o ouro olímpico, diante dessa mesma Alemanha. Lá estavam alguns dos jogadores que entraram em campo nesse time reserva de Low.
Guardadas as devidas proporções, o clássico entre Flamengo e Fluminense, onde o time tricolor ganhou por 4 gols do time reserva rubro-negro tem sabor diferente para cada torcida envolvida. Entra para as estatísticas, mexe com o psicológico, e sabemos, isso fará diferença lá na frente. Foi bom ganhar dessa força que no último embate meteu foi 7. Destrava a rapaziada, deixa tudo mais leve, seja lá o que venha a acontecer.

DOMINGOS QUE VIRARÃO SÁBADOS

Para os Adventistas do 7o Dia o descanso é celebrado religiosamente aos sábados. Metafisicamente falando, as trevas antecedem a luz e daí uma confusão dos diabos. É certo que o tempo e Cronos em sua expressão mais demoníaca, escravizam nossas ações. E vocês irão me chamar de idiota daqui a cinco segundos ou dois séculos. A temporalidade é de cada um, o tempo é inventado por quem pode.
E foram muitos os que puderam. Lá estava Júlio César, do alto do Império Romano, copiando o calendário mais eficiente do Egito de Cleópatra e de quebra dando a um dos meses o próprio nome. Ou ainda um Papa da Igreja Católica, se arvorando a instituir mudanças e nos entregar o calendário gregoriano. Até mesmo a Rússia, com toda a sua ortodoxia, abdicou do velho para seguir com o novo, e com isso alinhar-se aos vizinhos europeus com suas referências internacionais.
O fato é que todos os calendários continuam a coexistir. E os chineses comemoraram como sempre o Ano Novo que é uma exclusividade deles, assim como os judeus o fazem com o seu. Não são poucas as situações onde se encontra essa variedade de tempos e medidas, uma vez que o movimento inclui hábitos e crenças atávicas e toda uma ambientação cultural que nos imerge na tradição.
Para o futebol, no Brasil onde a conta é paga pela TV e a Globo dita as regras, toda a dinâmica de eventos cumpre a orientação da grade. Até que as receitas nasçam das estruturas mais móveis, do streaming sob demanda, tudo que depender da AUDIÊNCIA DO AO VIVO, seguirá obedecendo as normas internas da Instituição. Ela manda.
Tem sido assim com as transmissões exclusivas dos Desfiles de Escolas de Samba do Grupo Especial para o resto do mundo. Um produto que agora inclui a transmissão de uma espécie de "Mini-Escola de Samba", dentro do Estúdio Globeleza, construído justo na estrutura arquitetônica da Praça da Apoteose, como se fossem Hierofantes de um templo profanado, de um Deus caído, mestre Darcy Ribeiro, esse mesmo que preferiu não ressuscitar da tumba. Só se remexeu e estrebuchou, mesmo assim, muito pouco.
O que era uma questão de não colisão com o chamado horário nobre - esse que é responsável por mais de 70% das receitas do 3o maior grupo de TV do mundo - virou uma outra questão, a de mudança de dia, mês e quem sabe no futuro até de ano. Uma vez que a geografia já foi inteiramente bagunçada, a ponto de podermos assistir até a disputa inédita de uma "Taça Fora da Guanabara", agora resta ajustar tempos e relógios em conformidade com o suposto lucro. Eu disse, suposto, mas posso estar errado.
É de um imediatismo cego e de uma miopia de resultados no curtíssimo prazo, adotar a vontade dos compradores de eventos para determinar horários e lugares para os mesmos. Eles pagam a conta? Não tenho dúvida que sim. É uma parceria necessária. Certamente. São a inteligência do negócio? Definitivamente não. Digo isso porque os limites das contas que realizam é exclusivamente financeiro e possuem um framework limitado as receitas e prejuízos apenas para um dos processos, que é a transmissão. Mas um evento é repleto de dezenas de outros elementos, que se falharem o colocarão na prateleira dos produtos ruins. E aí meu amigo, serão descartados.
Seguindo essa lógica, quero voltar ao Domingo, dia sagrado, no calendário vigente do país. Não vai aqui qualquer divisão sectária, religiosa, apenas a constatação de um fato culturalmente adotado e aceito. Guardamos o domingo como dia de descanso, para ir ao cinema, ter um almoço em família, jogar um altinho na praia com amigos, uma pelada num campo de subúrbio, ou simplesmente assistir uma partida de futebol, no Maracanã ou pela TV. Cheguei onde queria. A Rede Globo de Televisão aboliu os Clássicos aos Domingos. Há algumas hipóteses sobre a razão de sua decisão. Usarei algum tempo aqui para superficialmente aborda-las.
Segundo o amigo Marcelo Barros, houve um evento que mudou o mapa de compreensão da intelligentsia da Rede Globo. Apesar do contradição estampada na frase do jornal do mesmo grupo, "Para um clube que considera a torcida seu maior patrimônio, é no mínimo estranho atuar num estádio vazio", o jogo do Corinthians contra o Milionários da Colômbia, cumprindo punição pela morte do torcedor boliviano Kevin Espada, trouxe, além da tragédia da violência que afasta o público, uma audiência recorde. A partir dali, os profissionais que cuidam de audiência concluíram que o melhor a fazer com a torcida era deixar que ficasse em casa. Ao fazê-lo, o chefe da clã não só monopoliza a TV para ver o que ficou proibido no estádio, como alinha telespectadores, filho, irmão, mulher, pai, cachorro, gato e o escambau!
São justamente desses que a turma dos números precisa, no curto prazo, para apresentar relatórios cada vez mais promissores sobre o retorno de mídia para os patrocinadores. Todavia, essa lógica tenderá a matar a galinha dos ovos de ouro local. Não precisaria explicar porque, para um público especializado e esperto. Mas o farei em respeito aos menos informados sobre o tema.
Um espetáculo de futebol, como outro qualquer, tem sua beleza pela presença do público. É sabido que todos os grandes astros das mais diferentes bandeiras e manifestações artísticas, música, dança, circo, teatro, cinema e tv, adoram o calor do público brasileiro. Por aqui foram gravados muitos. Se perdemos em aspectos técnicos e tecnológicos, ganhamos na alegria e em outros quesitos. Há exceções, é verdade. Mas uma minoria fácil de ser neutralizada. Basta querer e não fazer corpo mole.
O caso do espetáculo do futebol é emblemático. Enquanto grupos organizados e instituições milenares investem energia para que se criem hinos, mantras, símbolos, dentro do Maracanã e em outros pólos de futebol pelo país, reina a criatividade. Estrelas do anonimato, são protagonistas, como diria o Ator e Diretor de Teatro Ziembinski. Mas nessa seara, tudo que nasce é fruto de uma espontaneidade. A cultura local é muito forte e esbanja seu vigor. É bem diferente das plataformas mais organizadas e porque não dizer gourmetizadas da cena europeia.
O que então propõe a Rede Globo? Várias coisas, num só pacote. Que os times locais possam jogar fora de suas praças as competições regionais. Tal como um Fla-Flu no Pantanal, ou uma final da Taça Fora da Guanabara entre Flamengo e o novato em decisões Boavista. Pode ser em qualquer lugar. Não tenho notícias de nada parecido em qualquer lugar do mundo. E não poderia chamar isso de inovação, mas apenas de atendimento dos interesses da miopia e ganância empresarial. Mata-se também a imprensa de menor porte local, que aliás, permanece refém do medo.
A institucionalização de regras que promovam a decomposição da cultura futebolística está em curso. Há dezenas de outros componentes dessa cesta. Sou a favor de todos. Que assistamos a ótimo nível do futebol praticado na Europa. Que venha a Champions League, as Ligas da Inglaterra, Espanha, Itália, França. Mas por favor, a via de mão única tem um nome. E aponta riscos. Deixar de produzir talentos, e praticar o melhor futebol do mundo, um deles. Para quem vai vender o pacote da Sky, isso tanto faz. O produto da TV não é exatamente o Domingo no Maracanã, daquela música que uma certa torcida costuma cantar.
Como se não bastasse esse tal de fogo amigo da Odebrecht, que se apossou do Maracanã, comprometendo sua finalidade primeira, uma clara priorização de seus interesses, defendidos por uma legião de atores públicos corrompidos, o desvio de finalidade vai se somando ao obscurantismo e ausência de visão por parte dos que comandam essa máquina, pela via exclusiva do dinheiro. Os clubes são reféns dessa lógica, de onde estão, pouco ou nada podem fazer.
Vamos apelar pra Deus? Inclusive ele, mas quem sabe nós, partículas dessa infinita massa cósmica onde tempo e espaço se desmaterializam sem perder a consciência sobre nossa mais completa ignorância quanto ao fim ou início de novas possibilidades. Aqui não há saudosismo, apenas um convite ao levante com atitude.

CLÁSSICOS MATO-GROSSENSES DO ESPORTE BRETÃO

Era tempo de loteria esportiva com direito a cartão perfurado e zebra. As três colunas e os treze jogos não indicavam porque se criou uma relação tão forte com o Clube dos Treze. O Operário e o Mixto eram os times a serem vencidos, para o bem dos apostadores. Ou senão, zeeebra!

Tudo certo, aparecia aquela que para a turma do jogo tinha o mesmo valor afetivo que a galinha pintadinha para as crianças de hoje. Onde deixei minhas aulas de folclore? Sei lá. Só garanto que a capital é Cuiabá.

Não fosse a invenção de dois novos times, para alegrar a festa repleta de descendentes dessa miscigenação entre imigrantes europeus e índios bororós, eu já teria desistido da ideia de assistir uma partida de futebol contemporâneo naquele pantanal. Parece mesmo que é um dos únicos estádios que escapou das falcatruas para botar algum no bolso e encharcar a campanha presidencial de ocasião.

Em lugar do Cururu e seus repentes entre caipiras, desafiando uns aos outros, entrou o Fluminense do Mato-Grosso, uma nova modalidade de time, adotado como legítimo filho daquela terra. Para que não ficasse dúvida no ar, reforçaram a realização com a substituição do mais poético Siriri, outrora dançado por mulheres e crianças. É bom que se diga, não houve conflito entre torcidas, dentro ou fora do lugar da festa. O Flamengo Matogrossense Clube, criado para animar todas as festas, deixava a galera da arquibancada com o grito de gol na garganta, já que não aconteceu.

O que diriam as curandeiras do tornozelo do Neymar? Não fiquei sabendo. Posso dizer pelo meu, das poucas vezes em que torci o tornozelo, foram necessários pelo menos 15 dias de recuperação. Entre o momento que comecei a escrever o que seria uma má notícia, ela ficou pior. Incluíram um metatarso. Sobre esse assunto, escrevi em 2017 por duas vezes. Numa a vítima foi Kelly Slater. Ali saiu fora da luta por título ou prêmios na WSL. Na outra, ninguém menos que Gabriel Jesus.

Fez bem quem poupou atletas para jogos decisivos. A verdade é que ninguém tem como prever os acidentes de trabalho, numa profissão extremamente física como o futebol. Lia as fichas de atletas de alta performance na patinação no gelo, e lá estavam estampados tantos problemas e interrupções. Articulações, ombro, joelho, tendinite. Coisa de quem usa e abusa do corpo em alta rotação.

Não se pode esquecer, Pelé não jogou a Copa de 1962 e Garrincha brilhou com outros canários. Toda equipe precisa ter um Plano B. Nunca gostei da ideia de depositar toda a responsabilidade sobre Neymar. Temos como distribuir esse peso entre bons de bola. Ninguém poderia se enganar quanto a possibilidade real da estrela do PSG encarar o Real Madri. O caldo entornou? Pode ser que não. Combustível para o elenco de qualidade fazer da vantagem do jogo em casa sua maior arma.

Casa. Palavra importante. Desprezada pelos times cariocas. Mandar o jogo lá para o Pantanal foi uma furada. Perda de foco, técnico longe de casa, uma falta de noção, coisa de quem não pratica esportes. Esses deslocamentos já seriam ruins, o afastamento da torcida, muito pior. Sobrou mesmo o Cururu e o Siriri de um Fla-Flu Mato-Grossense.

NÃO SE PODE DEIXAR DE FALAR DO WILLIAN

Em dia de Pelé o craque agradece a Deus

Entrevistei esse cara em 2014. Desde aquele tempo sinto que há uma dificuldade em se entender um bom de bola, se por acaso for pouco midiático. É seu caso. Discreto, sem ser apático, sobra em campo. Eu disse que ele sobra. Todavia, só futebol não é suficiente no mundo em que vivemos.

Houve uma certa dificuldade até que fosse convocado para a seleção do Felipão. Chegou depois, embargando uma certa timidez, sem querer ocupar o espaço de ninguém. Mas o lance é que o futebol que ele joga ocupa muitos espaços. Pela versatilidade eu diria que quase todos os que existirem em campo, menos o de goleiro. Mas nunca quis competir com os companheiros de grupo. É um tipo do bem.

Nesses casos é preciso que exista um treinador que ponha ordem na casa, que limite os excessos dos mais egoístas, que dispense perebas, que reconheça o valor de jogadores que dão o sangue pelo time inteiro e não pela panelinha. Sem esse tipo de comando, Willian nunca terá o prestígio que merece. Mas - graças ao nosso bom Deus sempre tem um mas - acontecem dias especiais. Hoje foi um desses dias. Ninguém me contou, fui testemunha. E não apenas da Alina Zagitova em atuação de gala. Foi o dia em que Willian foi Pelé. Não fosse pela excessiva humildade, já teria ocupado o posto de protagonista do Brasil. Mas o futebol nem sempre é feito de operários craques.

Sua capacidade de atuação em todas as faixas de campo é assombrosa. O poder de disputa pela bola é bem superior ao da maioria dos atacantes brasileiros. Seus chutes tem melhorado. Sua solidariedade e visão de jogo muito boa. Nem sempre dá certo, há adversários. Jogar na mesma praia que um Neymar é complicado. Aí vira reserva. Ficar pelas beiras do campo, também. Aí acaba sub-aproveitado. Hoje flutuou em campo por onde quis. A liberdade tática é oxigênio escasso nos gramados de hoje. Os esquemas podem oprimir talentos. E essa coisa de família isso e daquilo também.

Tomara que esse craque não passe em branco pela Copa da Rússia. Seria. uma injustiça para o futebol. O país merece um time solto, técnico e incisivo, como são Neymar, Vinícius Jr, como é Willian, principalmente quando vem lá de trás, com tudo e um pouco mais. Um cara como o Nélio ia buscar lá também, com a mesma frequência. E no nível do fair play jogado na Europa, aumenta muito as chances de gol e com eles das vitórias. Todo time merece ter um cara desses.

UM RECORDE NA ARTE DO GELO

Alina is Art and Record at the Same Time

Hoje foi um dia atípico. E ao mesmo tempo meio céu, meio inferno. Enquanto os repórteres brasileiros comemoram uma pontuação acima de 50 pontos de uma brasileira-americana, nos representando nos Jogos de Inverno como se fosse uma medalha e pauta prioritária, o mundo parou por outros motivos menos ufanistas.

Foi uma nota 82.92 obtida por uma garota de 15 anos de idade. Seu nome, Alina Zagitova. O que ela fez com a representação de Cisne Negro não merece palavras, mas apenas um queixo caído, um boquiaberto extasiado, uma certeza sobre a importância da arte em certas modalidades ditas esportivas.

Gostaria mesmo que os parâmetros de julgamento privilegiassem os aspectos mais expressivos e interpretativos da performance. Selados em métricas, perdem a qualidade ainda por ser incluída com maior peso. Para desbancar sua companheira, a Eugênia Medvedeva, contou com o peso da arte. Fiquei com a impressão que em seu transe pessoal Alina não dava muita bola para aqueles números de giros. Creio que para ela se tratava de um mero detalhe.

O que contou nessa performance hipnótica esteve muito próximo do que costumamos assistir em cenas de balé. Também inclui itens claramente presentes na ginástica olímpica. Junte tudo isso e você tem uma escola de virtuosismo difícil de ser alcançada por algum outro tipo de pessoa. Por ali, cada um se vira com outros atributos. Não é o caso desse menina prodígio. Ali a densidade faz acreditar que uma nova era se inicia.

A era Zagitova acabou de começar. Tal qual Usain Bolt, e uma chinesa dos saltos em piscina que vi passar pelo Rio de Janeiro, levando pra casa todas as notas máximas no mundial que antecedeu as Olimpíadas. São fenômenos que me levam a contrariar a máxima rodrigueana sobre unanimidade.
As russas que se encontram pelas bandas da Coréia foram sem a bandeira do seu país. Problemas graves com doping tem afastado muita gente do mundo esporte. As políticas de incentivo a essa prática e as ações da WADA colidem em pontos de vista. Quem perde é o público e os atletas. Felizmente a solução diplomática dos sem bandeira é um caminho que não impede os novos talentos de terem ceifada sua existência para o mundo.

Eu vi a vitória da arte. E gosto dessa ideia como fundamento para o esporte em alto nível.

400 MILHÕES EM AÇÃO, SALVE MARACANÃ

Já não era sem tempo que aparecesse uma decisão que merecesse nosso respeito, por parte da reparação dos cofres públicos espoliados pelo poder público saqueador e uma classe empresarial inescrupulosa ao extremo. Coube a juíza Maria Isabel Pezzi Klein a decisão que determina a devolução dos 400 milhões aos cofres da CEF. Queria eu ter uma empresa de capital social de um mil reais e obter um empréstimo de quatrocentos milhões de reais! Dizia Mário Andreazza, “acima de 20% eu mando prender”, e vimos o PT praticar ágios de 50%, entre outras coisas menos nobres.

Nos tempos da ditadura militar, era comum encontrarmos o povo cantando “90 milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção”. Dentro desse espírito de unidade, veio o tricampeonato, a Taça em definitivo nas mãos da CBF, para acabar virando motivo de chacota, pelo roubo e destino do ouro que a constituía. Derretida ou em pó, anunciava o desmanche em curso, a fragilidade com os valores conquistados, a babaquice sistêmica. Ela se espalhou.

É de se esperar que finalmente a Odebrecht devolva os 400 milhões de reais para a Caixa Econômica Federal, obedecendo a determinação dessa ação judicial. Há partes interessadas e larápios envolvidos. Fico com o lema, “pegou, devolve”. O povo desconhece a política da Controladoria Geral da União. É importante frisar que mais importante que cortar cabeças, como se faz na pedagogia da barbárie das favelas, ou decretar prisão perpétua, o aspecto crucial é investir o poder público com um grau de ameaça capaz de recuperar os recursos saqueados. A CEF foi uma das instituições públicas mais vitimizadas, mas não foi a única. A construção do Itaquerão envolvendo financiamento questionável, tal qual uma série de outros, vai pouco a pouco vir a tona. Não será diferente lá no Nordeste, já citamos isso, o rombo tem proporções continentais. A lambança foi grande, mas dá pra salvar alguma coisa.

Tenho defendido a mesma prática em relação a grosseira concessão feita pelos governantes em suspeição no estado, com relação a reconstrução do Maracanã, hoje impedido pela Odebrecht e seu contrato de servir a população carioca para as atividades esportivas para as quais foi projetado e nasceu. Não que isso invalide o uso do espaço para outros fins. Mas trata-se de uma definição de atividade fim, a não ser desprezada. Os episódios de notória monstruosidade seguem na batuta do cinismo e da tática do João-sem-braço. Todos os envolvidos fingem que não viram, que o assunto não lhes diz respeito.

Enquanto isso, vemos os grandes clubes cariocas, Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense, largados em disputas insanas, que servem apenas como cortinas de fumaça, que desviam o foco daquilo que seria o mais relevante a ser feito nesse momento pela imagem do esporte carioca: a retomada do Maracanã.

Creio que a ação judicial envolvendo o uso do dinheiro da Caixa Econômica para construção do Itaquerão poderá servir como termo de referência para iniciativas eficazes em casos até mais graves, como o Mané Garrincha, Maracanã, entre outros existentes em estados da federação envolvidos nesse verdadeiro escândalo de abuso quanto ao uso de recursos públicos e subseqüente desvio de finalidade. Nem entrarei no mérito quanto a necessidade de tantas obras - que pessoalmente considero 50% dispensáveis dentro de um conceito de otimização de recursos e de logística para a Copa de 2014 – e que sabidamente se acoplava com o mapa das eleições.

Um país desses, com eleições a cada 2 anos, agora financiada com dinheiro da população – decisão corporativa de sindicatos e classe política – insiste em conspirar para não construir um regime democrático de qualidade mínima, fazendo assim coro com militares interessados em algum comando mais amplo que o da caserna e ditadores civis, assemelhados aos que encontramos nos regimes de fanatismo religioso medieval ou pré-histórico. Assim avança a barbárie.

O ENCONTRO DAS ÁGUIAS

Semana passada fiz uma reaparição após quase dois meses fora do ar. A vida é uma sequência episódica muito mais fora de controle do que aquilo que somos levados a imaginar. Muito disso segue um roteiro oculto, a ser montado apenas após da sucessão de acontecimentos. É aí que podemos atuar, juntando pedaços, as vezes cacos, fragmentos, vestígios.

Ao acabar de assistir o impecável desfile da Águia de Madureira, proporcionado pelo casamento perfeito entre o clássica Portela e a historiadora e artista plástica Rosa Magalhães. Foi bom de ver toda aquela suavidade desfilando, a certeza de que finalmente a excelência seria preservada em 2018 no Sambódromo, sem o mimimi de quem ficou sem grana, mesmo com o bolso cheio de grana. Historicamente o carnaval nunca foi uma atividade dependente de recursos públicos. Seria como decretar a morte e a domesticação dessa festa selvagem da esculhambação, no melhor sentido do que isso possa vir a representar. A Portela desse ano é muito mais candidata ao título do que a de Paulo Barros, já consagrada campeã. Esteve melhor, em todos os sentidos.

Mas o título depende de combinar com as outras, não é verdade? E nesse caso, faltou combinar com o Salgueiro, das matriarcas que Alex levou magistralmente para a Sapucaí. Esse rapaz possui a combinação de atributos que garante a entrega de um produto do maior nível, um carnaval conceitual fundamentado na cultura local, uma leitura comunitária, uma beleza que só podia ter sido forjada em Bangu, seu berço de elaboração, seu vermelho de múltiplas tonalidades, com domínio cromático abençoado. Um Salgueiro campeão, ao pé da letra, desde fosse possível combinar com as outras. Mas não foi.

Veio a Beija-Flor. Reencontrou sua lendária tradição contestatória, preservando o sorriso e sem a pobreza da literalidade, que de certo modo atrapalha os níveis mais elevados da ação artística. A arte que precisa ser explícita acaba meio parecida com jornalismo. Houve quem assumisse esse papel, há quem acredite nisso. Tem sua função, mas não chega perto do abstrato, esse, para poucos. Mas não tão poucos, pois o cordão natural cantando o samba da ganhadora de Nilópolis. Acho que me traí. Chamei a escola de Laíla de ganhadora. É difícil saber o que acontecerá com aquelas notas que saem do envelopes. Ficará entre as três.

Em fevereiro do ano passado, estudando novas formas de transmissão streaming, encontrei o case sobre o time de futebol americano das Águias, os "Eagles". O artigo, premonitório sobre o efeito midiático no crescimento da base de audiência e força dos times não tardou a gerar efeito. Falei a Marcelo Barros​ que esse caminho não tem volta. Encontrar o nicho e instalar a melhor equipe de cobertura para esse fim é um caminho sem volta. A fragmentação ultra-especializada é um caminho sem volta.

Não custa dizer que duas águias campeães podem pintar nesse 2018. Uma já deu seu voo improvável frente ao maior vencedor dos últimos anos, o Patriots de Tom Brady, que amargou a derrota não imaginada. Por aqui, o imponderável ou milagre, a colocariam no páreo.

FUTEBOL CARIOCA PREVISIVELMENTE RIDICULARIZADO

Cantei essa pedra por aqui, no Mosaico Esportivo. Acompanhando essa grande palhaçada que é a manutenção do Maracanã nas mãos da Odebrecht, um erro fácil de ser corrigido pela justiça, tão logo as eleições para Governo do Estado aconteçam. Um ano, times cariocas, Vasco e Botafogo correm o risco de jogar em Manaus, por conta das vantagens econômicas. Após o mínimo de aplicação da chamada sanidade mental, vimos a final do Campeonato Carioca na cidade do Rio de Janeiro.

Entramos 2017 sem aprender muito sobre isso. Um calendário com datas e sem locais de realização das partidas da competição. Uma vergonha para a FERJ. Fomos empurrando com a barriga. A imprensa fragilizada e refém do cala boca, nada diz, nada vê. Vai morrer a míngua, com custos e desaparecimento da principal vantagem na cobertura de eventos esportivos. Mortinha, nem a própria globo envia mais seus profissionais para campo. Agora eles transmitem dos estúdios, assistindo o jogo igualzinho a você, pela TV. Acreditem, tem sido assim nos jogos do Vasco na etapa pré-Libertadores, foi assim no jogo em Volta Redonda entre Flamengo e Botafogo.

Os jornais passaram semanas anunciando um suspense fatal, a semi-final seria jogada no Engenhão, no Maracanã ou no Ninho do Urubu? Nenhuma das alternativas citadas. Finalmente a Diretoria do Flamengo se pronunciou - veja em nosso Twitter sobre a declaração do Bandeira - resumindo a tragédia, "o Maracanã não é mais do futebol". A imprensa não informa sobre qual foi a utilização do estádio durante o carnaval. Esconde-se a realidade, shows mais rentáveis, colisão de agendas, calendário que prioriza a grana entrando nos cofres da Construtora que é concessionária e sócia dos governantes, alguns presos.

O contingenciamento passando pelo uso do Engenhão para a final parecia certo. As conversas enfim seguindo em termos civilizados, até que o Flamengo ganhou e um garoto de 17 anos, Vinícius Jr. foi a campo, fez um gol e comemorou de modo considerado inadequado pelos adversários. Levou seu cartão amarelo, segundo a interpretação dada pelo juiz, sobre comemoração ofensiva em direção a inexistente torcida do Botafogo no estádio da Cidadania. Sei lá, já tinha ficado chato o comportamento dos atletas ali-negros, pedindo satisfação ao que um carioca chamaria simplesmente de "zoação". Mas agora é assim. Sei lá, tá difícil manter o clima de alegria né?

Como se não bastasse o desfecho da partida, que em lugar de exaltar a beleza do golaço do garoto, ou o apagão do Rever na arrancada do atacante botafoguense, ficamos na conversa sem gosto sobre o comportamental. Ninguém poderia ser tão cruel com a beleza do jogo. Mas foram. E para fechar o caixão, transferiram a partida já pré-marcada para o Engenhão lá para o Espírito Santo.

Sinceramente, isso é coisa do capeta. E assim segue o futebol carioca previsivelmente ridicularizado. Com esses que estão aí, não daremos rumo a nada. Fico com a estrela de Nau Sem Rumo, música de Lô Borges, gênio mineiro daquele Clube da Esquina.

NEM BASQUETE, NEM FUTEBOL, NEM CINEMA, NEM CIRCO

Era dia de basquete, logo pela hora do almoço. Justamente no dia seguinte ao jejum. Então pra quê basquete se o que clama é a fome e a oferta do banquete com bacantes? As cestas que me perdoem, por maisvaliosas que sejam, especialmente as de três, deixaram para trás rastros de imprecisão e fraqueza, perto da cesta de natal, que me abençoou com nozes, frutas cristalizadas, castanha do Pará bem cozida, rodeado com muitos amigos. Deixar a disputa pela convivência fazia mais sentido, recuperava o senso de responsabilidade plena pela vida.
Mesmo que bastasse um futebol de final de dia, o BRT já me avisava sobre um clássico na cidade, só que as dezenove horas. Nossa senhora, que mentira cabeluda. O sistema de informação no Rio de Janeiro, beira uma mistura entre fake news e guerrilha de contra-informação. Afinal, a que horas estaria eu no Maraca? Enfim, como é possível a um só corpo ocupar dois lugares no espaço? Havia um vazio dentro de mim. Já não sabíamos de cor e salteado o nome dos que formariam o elenco no gramado do Maraca. Mas pelo menos esse ano haveria Maraca nos clássicos. Reeditar a vergonha nos levaria a exigir algum tipo de embargo aos concedidos e concessores do espaço. O futebol que morre também nasce, e a Copinha que o diga. Não teremos por aqui sequer a metade do público visto por lá. Faltam promessas, atrações e sobram bravatas.
Quanto ao cinema, sem pipoca e passagem, fica até mais barato, mas não se chega até a sala de bicicleta ou a pé. A insanidade do benefício que beneficia a parcela já melhor resolvida da população, fora da curva de desempregados. Para esses últimos, apenas o banco de reserva em lugar da poltrona numerada. Vai chegar a hora. Não convém reclamar. O não fazer abre espaço para o bem feito. Que assim o façamos, com excelência.
E o palhaço o que era? Ladrão de mulher! Até ele partiu. A breve passagem no tempo da trupe do Circo levou turbas ao cantinho escuro, tal qual sala de cinema, só que para crianças e adolescentes. O novo Cirque du Soleil é uma metáfora daquilo que mesmo os que nunca foram e nem sabem da existência gostariam de assistir. Gostariam? O gosto nunca foi pautado pela vontade alheia. A ordem do desejo e da libido nasce dentro de cada um. É um patrimônio intransferível, talvez o mais valioso.
Deixo aqui um conselho. Quando não puder mais fazer as coisas que deseja, profissionalmente, faça-as comprando ingresso. Só assim perceberá o valor do seu interesse e demonstrará o quanto valoriza aquilo que escolheu fazer. Nos tratados empresarias que escrevi com base na experiência própria de vida, arquei com o compromisso de dedicar cinquenta por cento de todo o tempo de trabalho para fazer apenas e tão somente aquilo que julgasse prazeroso para o ofício. Quando criei essa taxa de satisfação laboral, achava até exagerada. Hoje, mais radical, livre e ciente da enorme alegria que isso me proporcionou, diria que fui conservador. Uns setenta por cento já cabem nos andamentos desse sábado.
Todos garantidos, nenhum por garantir, mesmo que não tenha ou faça, basquete, futebol, cinema ou circo, eles estão dentro de mim, e eu estou neles. A forma dos acontecimentos e expansões lúdicas da alma não devem ser amarradas pelas mesmas dinâmicas condicionadoras de sistemas e esquematizações falidas, de onde tiramos péssimos exemplos e cópias. Ser uma empresa distribuidora de felicidade é antes de mais nada tê-la para si. Ninguém dá o que não tem. O Soleil partiu. Mas ele sempre volta.

ESTRATÉGIAS EMPRESARIAIS ESPORTIVAS

Em tempos de crise as empresas costumam se ajustar numa velocidade maior do que o setor público. Questão de sobrevivência, o tempo do setor público é muito mais elástico. Não foi diferente com os grupos econômicos que ganham dinheiro com transmissão de jogos ao vivo. A Rede Globo de Televisão é um caso que já merecia um artigo, desde antes. Mas já que não foi antes, que seja agora.
Recursos bem mais reduzidos que nos tempos da Copa do Mundo, ou ainda na rebarba das vantagens competitivas das Olimpíadas - onde chegou inclusive a me dar a sensação de que seria a dona do Centro Olímpico, quando construiu seu quartel general naquele lugar - a empresa unificou suas atividades, demitiu em larga escala, automatizou tudo que pode, ficou mais eficiente.
Passada essa primeira etapa, assistimos uma nova etapa nesse ano de 2018. De cara, estou eu na casa de um amigo, termina a novela, todos na sala, entra uma vinheta que causou espécie, tamanha beleza e grandiosidade. Afinal, do que se tratava? Seria uma partida internacional em Wembley, amistoso, perguntaram alguns. Ou será que não ficamos sabendo de algum jogo especial da Champions League? Teria o Campeonato Francês, por sorte na cesta de produtos do SporTV, tendo o protagonista Neymar na telinha? Nada disso amigos. Era a chamada para um jogo do Fluminense, no campo do América, na Baixada Fluminense, pelo Campeonato Carioca, contra o Madureira. Para a Globo, Pedro e Marcos Júnior foram transmutados em Messi e Suarez. E Xerém ganhou status de Barcelona.
A partir daquela vinheta, ficamos todos embasbacados. Aquela apresentação era desproporcional, muito ouro numa pílula. Parecia mesmo uma propaganda enganosa. A começar pela ocupação das arquibancadas. Não era possível imaginar mais de 500 pessoas naquela noite, numa cidade violenta, na Baixada, no horário noturno. Seria pedir pra virar mais um candidato a morto. Não dá pra ir. Começou as 19 horas e você não sai de lá antes das 21 horas.
Na segunda cena, lá vamos para o Chile. Contando com o time do Vasco da Gama na fase pré-Libertadores. E a Globo coloca seu time de narrador-comentarista-arbitragem no estúdio. Isso é reflexo da crise meus amigos. Porque o time do Vasco possui uma das maiores torcidas do país. O dinheiro está mais escasso, é preciso cortar custos. Essa racionalidade quem é só do ramo na condição de prestador de serviço não alcança. Há quem pense em montar equipes de trabalho que paguem para tal. Não acho impossível. Essa é bem a diferença dos estúdios de Hollywood para as Escolas de Samba brasileiras. A espontaneidade no ato de fazer. Não há erro em querer viajar para a lua e pagar pelos custos dessa viagem. Sendo um milionário ou tendo economizado a vida inteira para viver esse sonho, nada impede. Só não podemos chamar isso de modelo de negócios.
O que está acontecendo com a reestruturação executada pela maior empresa brasileira de televisão na sua pauta de transmissões esportivas é algo notável. Vale ser observado. O encurtamento das distâncias, a ideia de resgatar o valor das competições locais é um movimento em curso. Fazemos parte desse movimento, por razões afetivas, bem distintas das financeiras ou ecológicas. Sempre me senti melhor jogando no campo ao lado da minha casa, quando não nas quadras dos quintais. A disposição física, as possibilidades de humanização e a familiaridade não podem ser dispensadas por um craque da vida. Os deslocamentos necessários a um atleta de futebol que joga na Rússia torna aquele campeonato um dos piores do mundo para a qualidade de vida do jogador de futebol. Mas isso é outra história.

GOLEIRO GANHA JOGO, TÍTULO, PAR OU ÍMPAR...

Uma final no Pacaembu com trinta mil espectadores e mais de oitocentos mil reais de renda? Fique tranquilo, não é o Campeonato Carioca. É a Copinha. O novo fenômeno de interesse pelo futebol jogado pelos mais jovens, cujos melhores não veremos jogar nos gramados brasileiros. Me faz lembrar dos ensaios técnicos das Escolas de Samba no Sambódromo - a melhor coisa que aconteceu no mundo do carnaval, juntamente com os blocos de rusa - e a lotação esgotada para o povão, esse mesmo excluído do mundo gourmet do futebol profissional.
Para a final da Copinha, os antecedentes contam. E o Flamengo vinha como um rolo compressor, introduzindo uma novidade, com seus novos talentos mais destacados atuando simultaneamente no início do campeonato carioca. Divididos entre duas competições, lá iam os garotos. E um deles excedeu-se em brilho. Foi Vitor Gabriel. No time profissional, gol de almanaque, lhe rendeu minhas comparações com Dimitri Oberlin e Adriano dos bons tempos. Uma promessa de craque não é um craque. Só o tempo dirá se o jovem figurará na galeria de ídolos do futebol brasileiro ou mundial. É cedo, muito cedo. Mas não a ponto de não acusarmos a participação na semi-final que levou o Flamengo até a final. Dois gols e uma assistência num jogo em que seu time meteu três? Não há o que dizer. Só lamentar sua ausência na partida principal. Aliás, um Flamengo muito amarelado pela arbitragem. Um gesto de silêncio como método de comemoração é tido como provocação a torcida? Vaidagem arbitral...
Mas não fora apenas Vitor Gabriel a desfalcar o rubro-negro. Fala-se em cinco nomes da equipe titular. Outra vítima de sua própria sorte, o bom lateral Ramon. Como seria então essa partida, contra os paulistas, um time desfigurado? Certamente meio fora do padrão apresentado ao longo da competição. Agravada a situação pela maldição do gol no início. É sempre assim. A defesa vai sofrer. E sofreu. O São Paulo martelou, martelou, mas não marcou.
Atribuir o fracasso na busca do gol ao time tricolor é uma falha de caráter grave. Há um herói nesses casos. E o nome dele é Yago.
Já havia feito uma defesa decisiva ao final do jogo contra a Portuguesa. Lá ia deixando sua marca. Não que seja um goleiro pronto. Mas foi dado a ele o direito de brilhar, numa manhã onde tudo deu certo. Sorte não lhe faltou. Competência também não.
É difícil explicar, sem o manto da injustiça, as razões que levaram o São Paulo a perder o título para o Flamengo. No futebol, nem sempre quem joga melhor ganha. Ao time carioca, após o gol, e numa arena hostil, sem o seu melhor, cabia defender com unhas e dentes sua posição. Mesmo sem a melhor defesa, mas contando com um desejo de levar o que já estava na mão. A vitória veio cedo, o grupo ficou refém do resultado construído precocemente. Paciência, deu certo, goleiros ganham jogos, títulos e até mesmo par ou ímpar. Não custa lembrar que eles também perdem essas mesmas coisas. A mão de alface do Muralha e do seu reserva, levaram a Copa do Brasil pro outro lado. A sorte de hoje foi o azar de não ter goleiro em 2017, nas horas mais decisivas. Outras agremiações sofreram com isso, até terem um goleiro pra chamar de seu. Hoje a nação teve Yago. Por favor torcida, não peça para que seja titular na Libertadores. Assim queimam o filme de quem já teve seu dia de glória.

Vladimir Cavalcante / AREEVOL.TODAY
Vladimir Cavalcante / AREEVOL.TODAY

Vamos dizer que você estivesse passando no Rio de Janeiro justamente no dia mais quente do ano e a temperatura atingisse a sensação térmica de 45 graus. Nesse dia, um amigo lhe convidasse para dar uma pedalada de bicicleta entre Realengo e Bangu, para logo depois ir conhecer o estádio Moça Bonita, assistindo um jogo entre o Madureira e o Boavista.
Não sei quanto a sua saúde, nada posso afirmar quanto ao seu coração. Mas se você passasse por esse batismo de fogo, certamente estaria preparado para os próximos dias de carnaval, que aliás prometem ser mais quentes.
O jogo nessas circunstâncias, fica tecnicamente muito prejudicado. Não se pode exigir de um atleta em plena operação de sobrevivência que tenha cabeça para pensar o melhor lance. Não seria justo. A parte mais curiosa disso tudo é que os cabras em campo ao invés de se pouparem, acabam despendendo muita energia na disputa pelo domínio de meio de campo, faltando assim o gás para seguir até o ataque.
De um lado, um time de transição, rápido, que chegou perto várias vezes. Do outro, um toque de bola que exige uma compactação impossível de acontecer com aquela temperatura. Deu Boavista, merecidamente. O gramado esturricado e alto prejudicaram um pouco o espetáculo pela TV e para os jogadores, exigindo uma dinâmica que já não treinam. Mas a forte chuva do dia anterior deixou como presente a queda de luz intermitente que deixou a emissora encarregada impedida de transmitir a partida integralmente.
Nós, que também tínhamos a cobertura do brasileiro de basquete pela frente, do outro lado da cidade, também tivemos que sair pouco antes do fim, que já estava definido. Me perguntei a razão de um jogo cujo mando de campo era do Madureira não acontecer em Conselheiro Galvão. A resposta foi que a infraestrutura ao lado da estação de Guilherme da Silveira era melhor. Não foi isso que me pareceu, nos dois dias em que ali estive. Pelo menos não esse ano. Os cuidados de 2017, quando o Moça Bonita substituiu o insubstituível Maracanã em muitos jogos do Campeonato Carioca parecem ter desaparecido.
E por falar em cuidados, quero levantar uma lebre. Está na hora de tornarmos obrigatório a presença de bicicletários em todos os equipamentos esportivos da Cidade do Rio de Janeiro e do Estado do Rio de Janeiro. Pouco me importa se outros lugares do país não o façam. Mas aqui não. É dever dos nossos representantes, estimular o uso de transporte limpo e o incentivo começa nos lugares onde se pratica esporte. Acaba sendo um paradoxo que alguém com um puta carro de tração nas quatro rodas tenha seu lugar garantido e um cidadão comum não possa deixar sua bicicleta estacionada no lugar onde o esporte está rolando.
Que alguém abrace essa ação, e será responsável por bons frutos que dela nascerão.

UM CARIOCA EM MOÇA BONITA

REMINISCENTES DA FASE AUREA DE FORMAS DECADENTES

Tenho ouvido com o máximo de atenção e interesse, relatos de pessoas que viveram o privilégio de um Brasil relevante no futebol. Tempos do futebol do café, quando o café habitava como marca de propaganda a camisa da seleção brasileira.
Há diferenças abissais entre os motivos que levavam o torcedor aos estádios e o momento atual do esporte nacional. Pensei em fazer uma lista de nomes. Certamente o amigoIata Andersonpudesse me ajudar. Não duvido queMarcelo Barrospudesse muito bem fazer o mesmo. Seria uma lista extensa. Pessoas que acompanharam de perto o que no carnaval e escolas de samba chamamos de baluartes. Pois bem. A geração atual não disporá das mesmas facilidades para ter seus baluartes do futebol, nascidos no território tupiniquim. O máximo que veremos é um Vinícius Jr., um Vitor Gabriel, um Paulinho, entre tantos outros garotos, jogando na Copinha e depois partindo para algum negócio de expressão numérica internacional. A cifra vale mais que o futebol. Esse é o novo jogo.
Sem receber ainda a lista, ou sequer me ater a ela, começaria pelo Juca Kfouri. Dono de uma lucidez acima da média, viverá ressentido com a ausência daquilo que já não habita nossos gramados. É por isso que mesmo num domingo na Ilha do Governador, flamenguistas são contados como gatos pingados na Urubulândia. A atratividade daquilo que outrora seria uma preliminar com um time de garotos no Maracanã, foi substituída por uma nova atração, produzida pelos garotos de outrora, donos apenas da preliminar. Trata-se de uma mudança com consequências.
Na linha do tempo do futebol brasileiro, me parece que a fase áurea passou. E que teremos que nos acostumar com a ideia de conviver com as suas diferentes variações de decadência. O auge de nosso atletas ficará para ser servido na Europa. Findo o período de maior destaque, cumprida sua missão na geopolítica econômica, diga-se de passagem altamente concentrada, pode voltar pra cá, exibindo as chuteiras penduradas e se despedir com honra de nossos torcedores.
As formas decadentes que avistarmos por aqui poderão ter até cheiro de grife, vídeos no youtube para podermos assistir quão bons eram. Mas isso é uma enganação de proporções tão continentais quanto a fronteira do nosso país.
O rebuliço está posto. Não nos enganemos. Ao ligar a TV prepare-se. Porque ao mesmo tempo em que o PSG enfrenta o Lyon para disputar a liderança do campeonato francês, a mesma emissora vai transmitir o jogo do então líder Bangu encarando o Volta Redonda. As imagens são chocantes, pelo contraste que nada tem que ver com a temperatura. Pouca gente sabe, mas a grama fica mais verde no verão chuvoso das várzeas cariocas. Mas o campo do estádio de Moça Bonita estava com a grama esturricada. Perguntei a uma torcedora das antigas como era antes, e ela me respondeu que nunca havia visto o gramado daquele lugar tão maltratado. Foi então que o contraste se fez maior. A janela do abismo para o público já não deixava dúvidas. Enquanto na França, ingressos esgotados e uma festa repleta de pirotecnias acontecia e o ingresso a custos de 60 Euros era executado com grande antecedência, aqui a arquibancada vazia, para um jogo em horário impróprio. Um crime. Não posso esquecer da noção de ídolo do time, ou da presença de craques. Eles já não habitam entre nós.
A soma de tudo isso nos levará a aceitar, cada vez mais, que as crianças dessa nova geração, e mesmo adolescentes comoEnzo Framback, sejam torcedores roxos de Real Madri, Barcelona, Roma, Juventus, Manchester United. O ânimo para atravessar a rua e assistir um time local já não existe mais para o futebol. No extremo disso, já se vê nos velhos combates entre adversários históricos, como Brasil e Argentina, crianças brasileiras vestidas com camisa argentina e torcendo ardorosamente para que o Brasil perca. Reação natural, visto que consideram o técnico burro, não tem referências locais e acompanham a genialidade de Messi na TV por assinatura, internet ou no Game da FIFA.
A extinção por irrelevância é uma questão de tempo. Proporcionalmente falando, o NBA e todos os grandes times americanos com seus astros são tão mais atrativos que a possibilidade de uma liga como o NBB competir com a força econômica e de espetáculo que o basquete americano possui é nula. Idem para o futebol americano por aqui, que me perdoem os amigos praticantes, comoLucas GonçalveseTomás Gonçalves. O esvaziamento que assistimos no futebol segue continuadamente seu curso.
Como numa extinção de espécie, haverão ainda os que vivos contarão belas histórias, algumas já quase centenárias. Mas esse ciclo se foi e deixou em seu lugar apenas um certo saudosismo, fruto da dificuldade de aceitar uma outra realidade que se configura. Esses reminescentes que ainda habitam entre nós são valiosos, mas não terão capacidade para mudar o caminho de decadência daquilo que aceitamos como realidade. Para que o Brasil exerça sua vocação de Potência futebolística e esportiva precisamos urgentemente de outras fórmulas.

EIS UM TIME VELOZ

Em 2017 eu vi um cara jogando num time de menor expressão mundial, lá pelas bandas da Suíça. Um tal de Dimitri Oberlin me encheu os olhos, numa partida pelo Basel, onde interceptou um escanteio, fez um-dois com o meio de campo e finalmente chegou a outra área para marcar um golaço, que acusei como o melhor daquela rodada da Champions.
Vi jogadores no passado com essa mesma pegada. Certa vez um monstro, um tanque de guerra, que derrubava quem estivesse pela frente, como uma bola de boliche faz, por ocasião de um strike. O Adriano era assim. Sempre gostei de jogadores com a versatilidade e disposição para ocupar diferentes espaços e funções em campo. O que mais me impressionou, Ruud Gullit, pelo conjunto da obra, acabei conhecendo fortuitamente nas instalações de um hotel, recebendo uma bela modelo, digna de se tirar o chapéu. Cabra bom desses que faz valer o ingresso, acho que só nas categorias de base. Já não ficam mais por aqui.
A velocidade e a técnica. Juntos. O que mudou no futebol? Basicamente nada. Então o Vitor Gabriel vai lá e faz. Tem a Copinha, o Carioca 2018, o Varejão chegando, a reviravolta na novela das eleições do Vasco.
Esse janeiro já entregou o que prometia para 2018. Daqui por diante é bonificação. Nessa intensidade o titio não aguenta. Dentro da noite veloz, pego um livro e sigo os rastros dos cheiros. Com a Adriana Calcanhoto cantando Vambora, fica bem melhor.