NÃO SE PODE DEIXAR DE FALAR DO WILLIAN

Em dia de Pelé o craque agradece a Deus

Entrevistei esse cara em 2014. Desde aquele tempo sinto que há uma dificuldade em se entender um bom de bola, se por acaso for pouco midiático. É seu caso. Discreto, sem ser apático, sobra em campo. Eu disse que ele sobra. Todavia, só futebol não é suficiente no mundo em que vivemos.

Houve uma certa dificuldade até que fosse convocado para a seleção do Felipão. Chegou depois, embargando uma certa timidez, sem querer ocupar o espaço de ninguém. Mas o lance é que o futebol que ele joga ocupa muitos espaços. Pela versatilidade eu diria que quase todos os que existirem em campo, menos o de goleiro. Mas nunca quis competir com os companheiros de grupo. É um tipo do bem.

Nesses casos é preciso que exista um treinador que ponha ordem na casa, que limite os excessos dos mais egoístas, que dispense perebas, que reconheça o valor de jogadores que dão o sangue pelo time inteiro e não pela panelinha. Sem esse tipo de comando, Willian nunca terá o prestígio que merece. Mas - graças ao nosso bom Deus sempre tem um mas - acontecem dias especiais. Hoje foi um desses dias. Ninguém me contou, fui testemunha. E não apenas da Alina Zagitova em atuação de gala. Foi o dia em que Willian foi Pelé. Não fosse pela excessiva humildade, já teria ocupado o posto de protagonista do Brasil. Mas o futebol nem sempre é feito de operários craques.

Sua capacidade de atuação em todas as faixas de campo é assombrosa. O poder de disputa pela bola é bem superior ao da maioria dos atacantes brasileiros. Seus chutes tem melhorado. Sua solidariedade e visão de jogo muito boa. Nem sempre dá certo, há adversários. Jogar na mesma praia que um Neymar é complicado. Aí vira reserva. Ficar pelas beiras do campo, também. Aí acaba sub-aproveitado. Hoje flutuou em campo por onde quis. A liberdade tática é oxigênio escasso nos gramados de hoje. Os esquemas podem oprimir talentos. E essa coisa de família isso e daquilo também.

Tomara que esse craque não passe em branco pela Copa da Rússia. Seria. uma injustiça para o futebol. O país merece um time solto, técnico e incisivo, como são Neymar, Vinícius Jr, como é Willian, principalmente quando vem lá de trás, com tudo e um pouco mais. Um cara como o Nélio ia buscar lá também, com a mesma frequência. E no nível do fair play jogado na Europa, aumenta muito as chances de gol e com eles das vitórias. Todo time merece ter um cara desses.

UM RECORDE NA ARTE DO GELO

Alina is Art and Record at the Same Time

Hoje foi um dia atípico. E ao mesmo tempo meio céu, meio inferno. Enquanto os repórteres brasileiros comemoram uma pontuação acima de 50 pontos de uma brasileira-americana, nos representando nos Jogos de Inverno como se fosse uma medalha e pauta prioritária, o mundo parou por outros motivos menos ufanistas.

Foi uma nota 82.92 obtida por uma garota de 15 anos de idade. Seu nome, Alina Zagitova. O que ela fez com a representação de Cisne Negro não merece palavras, mas apenas um queixo caído, um boquiaberto extasiado, uma certeza sobre a importância da arte em certas modalidades ditas esportivas.

Gostaria mesmo que os parâmetros de julgamento privilegiassem os aspectos mais expressivos e interpretativos da performance. Selados em métricas, perdem a qualidade ainda por ser incluída com maior peso. Para desbancar sua companheira, a Eugênia Medvedeva, contou com o peso da arte. Fiquei com a impressão que em seu transe pessoal Alina não dava muita bola para aqueles números de giros. Creio que para ela se tratava de um mero detalhe.

O que contou nessa performance hipnótica esteve muito próximo do que costumamos assistir em cenas de balé. Também inclui itens claramente presentes na ginástica olímpica. Junte tudo isso e você tem uma escola de virtuosismo difícil de ser alcançada por algum outro tipo de pessoa. Por ali, cada um se vira com outros atributos. Não é o caso desse menina prodígio. Ali a densidade faz acreditar que uma nova era se inicia.

A era Zagitova acabou de começar. Tal qual Usain Bolt, e uma chinesa dos saltos em piscina que vi passar pelo Rio de Janeiro, levando pra casa todas as notas máximas no mundial que antecedeu as Olimpíadas. São fenômenos que me levam a contrariar a máxima rodrigueana sobre unanimidade.
As russas que se encontram pelas bandas da Coréia foram sem a bandeira do seu país. Problemas graves com doping tem afastado muita gente do mundo esporte. As políticas de incentivo a essa prática e as ações da WADA colidem em pontos de vista. Quem perde é o público e os atletas. Felizmente a solução diplomática dos sem bandeira é um caminho que não impede os novos talentos de terem ceifada sua existência para o mundo.

Eu vi a vitória da arte. E gosto dessa ideia como fundamento para o esporte em alto nível.

400 MILHÕES EM AÇÃO, SALVE MARACANÃ

Já não era sem tempo que aparecesse uma decisão que merecesse nosso respeito, por parte da reparação dos cofres públicos espoliados pelo poder público saqueador e uma classe empresarial inescrupulosa ao extremo. Coube a juíza Maria Isabel Pezzi Klein a decisão que determina a devolução dos 400 milhões aos cofres da CEF. Queria eu ter uma empresa de capital social de um mil reais e obter um empréstimo de quatrocentos milhões de reais! Dizia Mário Andreazza, “acima de 20% eu mando prender”, e vimos o PT praticar ágios de 50%, entre outras coisas menos nobres.

Nos tempos da ditadura militar, era comum encontrarmos o povo cantando “90 milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção”. Dentro desse espírito de unidade, veio o tricampeonato, a Taça em definitivo nas mãos da CBF, para acabar virando motivo de chacota, pelo roubo e destino do ouro que a constituía. Derretida ou em pó, anunciava o desmanche em curso, a fragilidade com os valores conquistados, a babaquice sistêmica. Ela se espalhou.

É de se esperar que finalmente a Odebrecht devolva os 400 milhões de reais para a Caixa Econômica Federal, obedecendo a determinação dessa ação judicial. Há partes interessadas e larápios envolvidos. Fico com o lema, “pegou, devolve”. O povo desconhece a política da Controladoria Geral da União. É importante frisar que mais importante que cortar cabeças, como se faz na pedagogia da barbárie das favelas, ou decretar prisão perpétua, o aspecto crucial é investir o poder público com um grau de ameaça capaz de recuperar os recursos saqueados. A CEF foi uma das instituições públicas mais vitimizadas, mas não foi a única. A construção do Itaquerão envolvendo financiamento questionável, tal qual uma série de outros, vai pouco a pouco vir a tona. Não será diferente lá no Nordeste, já citamos isso, o rombo tem proporções continentais. A lambança foi grande, mas dá pra salvar alguma coisa.

Tenho defendido a mesma prática em relação a grosseira concessão feita pelos governantes em suspeição no estado, com relação a reconstrução do Maracanã, hoje impedido pela Odebrecht e seu contrato de servir a população carioca para as atividades esportivas para as quais foi projetado e nasceu. Não que isso invalide o uso do espaço para outros fins. Mas trata-se de uma definição de atividade fim, a não ser desprezada. Os episódios de notória monstruosidade seguem na batuta do cinismo e da tática do João-sem-braço. Todos os envolvidos fingem que não viram, que o assunto não lhes diz respeito.

Enquanto isso, vemos os grandes clubes cariocas, Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense, largados em disputas insanas, que servem apenas como cortinas de fumaça, que desviam o foco daquilo que seria o mais relevante a ser feito nesse momento pela imagem do esporte carioca: a retomada do Maracanã.

Creio que a ação judicial envolvendo o uso do dinheiro da Caixa Econômica para construção do Itaquerão poderá servir como termo de referência para iniciativas eficazes em casos até mais graves, como o Mané Garrincha, Maracanã, entre outros existentes em estados da federação envolvidos nesse verdadeiro escândalo de abuso quanto ao uso de recursos públicos e subseqüente desvio de finalidade. Nem entrarei no mérito quanto a necessidade de tantas obras - que pessoalmente considero 50% dispensáveis dentro de um conceito de otimização de recursos e de logística para a Copa de 2014 – e que sabidamente se acoplava com o mapa das eleições.

Um país desses, com eleições a cada 2 anos, agora financiada com dinheiro da população – decisão corporativa de sindicatos e classe política – insiste em conspirar para não construir um regime democrático de qualidade mínima, fazendo assim coro com militares interessados em algum comando mais amplo que o da caserna e ditadores civis, assemelhados aos que encontramos nos regimes de fanatismo religioso medieval ou pré-histórico. Assim avança a barbárie.

O ENCONTRO DAS ÁGUIAS

Semana passada fiz uma reaparição após quase dois meses fora do ar. A vida é uma sequência episódica muito mais fora de controle do que aquilo que somos levados a imaginar. Muito disso segue um roteiro oculto, a ser montado apenas após da sucessão de acontecimentos. É aí que podemos atuar, juntando pedaços, as vezes cacos, fragmentos, vestígios.

Ao acabar de assistir o impecável desfile da Águia de Madureira, proporcionado pelo casamento perfeito entre o clássica Portela e a historiadora e artista plástica Rosa Magalhães. Foi bom de ver toda aquela suavidade desfilando, a certeza de que finalmente a excelência seria preservada em 2018 no Sambódromo, sem o mimimi de quem ficou sem grana, mesmo com o bolso cheio de grana. Historicamente o carnaval nunca foi uma atividade dependente de recursos públicos. Seria como decretar a morte e a domesticação dessa festa selvagem da esculhambação, no melhor sentido do que isso possa vir a representar. A Portela desse ano é muito mais candidata ao título do que a de Paulo Barros, já consagrada campeã. Esteve melhor, em todos os sentidos.

Mas o título depende de combinar com as outras, não é verdade? E nesse caso, faltou combinar com o Salgueiro, das matriarcas que Alex levou magistralmente para a Sapucaí. Esse rapaz possui a combinação de atributos que garante a entrega de um produto do maior nível, um carnaval conceitual fundamentado na cultura local, uma leitura comunitária, uma beleza que só podia ter sido forjada em Bangu, seu berço de elaboração, seu vermelho de múltiplas tonalidades, com domínio cromático abençoado. Um Salgueiro campeão, ao pé da letra, desde fosse possível combinar com as outras. Mas não foi.

Veio a Beija-Flor. Reencontrou sua lendária tradição contestatória, preservando o sorriso e sem a pobreza da literalidade, que de certo modo atrapalha os níveis mais elevados da ação artística. A arte que precisa ser explícita acaba meio parecida com jornalismo. Houve quem assumisse esse papel, há quem acredite nisso. Tem sua função, mas não chega perto do abstrato, esse, para poucos. Mas não tão poucos, pois o cordão natural cantando o samba da ganhadora de Nilópolis. Acho que me traí. Chamei a escola de Laíla de ganhadora. É difícil saber o que acontecerá com aquelas notas que saem do envelopes. Ficará entre as três.

Em fevereiro do ano passado, estudando novas formas de transmissão streaming, encontrei o case sobre o time de futebol americano das Águias, os "Eagles". O artigo, premonitório sobre o efeito midiático no crescimento da base de audiência e força dos times não tardou a gerar efeito. Falei a Marcelo Barros​ que esse caminho não tem volta. Encontrar o nicho e instalar a melhor equipe de cobertura para esse fim é um caminho sem volta. A fragmentação ultra-especializada é um caminho sem volta.

Não custa dizer que duas águias campeães podem pintar nesse 2018. Uma já deu seu voo improvável frente ao maior vencedor dos últimos anos, o Patriots de Tom Brady, que amargou a derrota não imaginada. Por aqui, o imponderável ou milagre, a colocariam no páreo.

FUTEBOL CARIOCA PREVISIVELMENTE RIDICULARIZADO

Cantei essa pedra por aqui, no Mosaico Esportivo. Acompanhando essa grande palhaçada que é a manutenção do Maracanã nas mãos da Odebrecht, um erro fácil de ser corrigido pela justiça, tão logo as eleições para Governo do Estado aconteçam. Um ano, times cariocas, Vasco e Botafogo correm o risco de jogar em Manaus, por conta das vantagens econômicas. Após o mínimo de aplicação da chamada sanidade mental, vimos a final do Campeonato Carioca na cidade do Rio de Janeiro.

Entramos 2017 sem aprender muito sobre isso. Um calendário com datas e sem locais de realização das partidas da competição. Uma vergonha para a FERJ. Fomos empurrando com a barriga. A imprensa fragilizada e refém do cala boca, nada diz, nada vê. Vai morrer a míngua, com custos e desaparecimento da principal vantagem na cobertura de eventos esportivos. Mortinha, nem a própria globo envia mais seus profissionais para campo. Agora eles transmitem dos estúdios, assistindo o jogo igualzinho a você, pela TV. Acreditem, tem sido assim nos jogos do Vasco na etapa pré-Libertadores, foi assim no jogo em Volta Redonda entre Flamengo e Botafogo.

Os jornais passaram semanas anunciando um suspense fatal, a semi-final seria jogada no Engenhão, no Maracanã ou no Ninho do Urubu? Nenhuma das alternativas citadas. Finalmente a Diretoria do Flamengo se pronunciou - veja em nosso Twitter sobre a declaração do Bandeira - resumindo a tragédia, "o Maracanã não é mais do futebol". A imprensa não informa sobre qual foi a utilização do estádio durante o carnaval. Esconde-se a realidade, shows mais rentáveis, colisão de agendas, calendário que prioriza a grana entrando nos cofres da Construtora que é concessionária e sócia dos governantes, alguns presos.

O contingenciamento passando pelo uso do Engenhão para a final parecia certo. As conversas enfim seguindo em termos civilizados, até que o Flamengo ganhou e um garoto de 17 anos, Vinícius Jr. foi a campo, fez um gol e comemorou de modo considerado inadequado pelos adversários. Levou seu cartão amarelo, segundo a interpretação dada pelo juiz, sobre comemoração ofensiva em direção a inexistente torcida do Botafogo no estádio da Cidadania. Sei lá, já tinha ficado chato o comportamento dos atletas ali-negros, pedindo satisfação ao que um carioca chamaria simplesmente de "zoação". Mas agora é assim. Sei lá, tá difícil manter o clima de alegria né?

Como se não bastasse o desfecho da partida, que em lugar de exaltar a beleza do golaço do garoto, ou o apagão do Rever na arrancada do atacante botafoguense, ficamos na conversa sem gosto sobre o comportamental. Ninguém poderia ser tão cruel com a beleza do jogo. Mas foram. E para fechar o caixão, transferiram a partida já pré-marcada para o Engenhão lá para o Espírito Santo.

Sinceramente, isso é coisa do capeta. E assim segue o futebol carioca previsivelmente ridicularizado. Com esses que estão aí, não daremos rumo a nada. Fico com a estrela de Nau Sem Rumo, música de Lô Borges, gênio mineiro daquele Clube da Esquina.

NEM BASQUETE, NEM FUTEBOL, NEM CINEMA, NEM CIRCO

Era dia de basquete, logo pela hora do almoço. Justamente no dia seguinte ao jejum. Então pra quê basquete se o que clama é a fome e a oferta do banquete com bacantes? As cestas que me perdoem, por maisvaliosas que sejam, especialmente as de três, deixaram para trás rastros de imprecisão e fraqueza, perto da cesta de natal, que me abençoou com nozes, frutas cristalizadas, castanha do Pará bem cozida, rodeado com muitos amigos. Deixar a disputa pela convivência fazia mais sentido, recuperava o senso de responsabilidade plena pela vida.
Mesmo que bastasse um futebol de final de dia, o BRT já me avisava sobre um clássico na cidade, só que as dezenove horas. Nossa senhora, que mentira cabeluda. O sistema de informação no Rio de Janeiro, beira uma mistura entre fake news e guerrilha de contra-informação. Afinal, a que horas estaria eu no Maraca? Enfim, como é possível a um só corpo ocupar dois lugares no espaço? Havia um vazio dentro de mim. Já não sabíamos de cor e salteado o nome dos que formariam o elenco no gramado do Maraca. Mas pelo menos esse ano haveria Maraca nos clássicos. Reeditar a vergonha nos levaria a exigir algum tipo de embargo aos concedidos e concessores do espaço. O futebol que morre também nasce, e a Copinha que o diga. Não teremos por aqui sequer a metade do público visto por lá. Faltam promessas, atrações e sobram bravatas.
Quanto ao cinema, sem pipoca e passagem, fica até mais barato, mas não se chega até a sala de bicicleta ou a pé. A insanidade do benefício que beneficia a parcela já melhor resolvida da população, fora da curva de desempregados. Para esses últimos, apenas o banco de reserva em lugar da poltrona numerada. Vai chegar a hora. Não convém reclamar. O não fazer abre espaço para o bem feito. Que assim o façamos, com excelência.
E o palhaço o que era? Ladrão de mulher! Até ele partiu. A breve passagem no tempo da trupe do Circo levou turbas ao cantinho escuro, tal qual sala de cinema, só que para crianças e adolescentes. O novo Cirque du Soleil é uma metáfora daquilo que mesmo os que nunca foram e nem sabem da existência gostariam de assistir. Gostariam? O gosto nunca foi pautado pela vontade alheia. A ordem do desejo e da libido nasce dentro de cada um. É um patrimônio intransferível, talvez o mais valioso.
Deixo aqui um conselho. Quando não puder mais fazer as coisas que deseja, profissionalmente, faça-as comprando ingresso. Só assim perceberá o valor do seu interesse e demonstrará o quanto valoriza aquilo que escolheu fazer. Nos tratados empresarias que escrevi com base na experiência própria de vida, arquei com o compromisso de dedicar cinquenta por cento de todo o tempo de trabalho para fazer apenas e tão somente aquilo que julgasse prazeroso para o ofício. Quando criei essa taxa de satisfação laboral, achava até exagerada. Hoje, mais radical, livre e ciente da enorme alegria que isso me proporcionou, diria que fui conservador. Uns setenta por cento já cabem nos andamentos desse sábado.
Todos garantidos, nenhum por garantir, mesmo que não tenha ou faça, basquete, futebol, cinema ou circo, eles estão dentro de mim, e eu estou neles. A forma dos acontecimentos e expansões lúdicas da alma não devem ser amarradas pelas mesmas dinâmicas condicionadoras de sistemas e esquematizações falidas, de onde tiramos péssimos exemplos e cópias. Ser uma empresa distribuidora de felicidade é antes de mais nada tê-la para si. Ninguém dá o que não tem. O Soleil partiu. Mas ele sempre volta.

ESTRATÉGIAS EMPRESARIAIS ESPORTIVAS

Em tempos de crise as empresas costumam se ajustar numa velocidade maior do que o setor público. Questão de sobrevivência, o tempo do setor público é muito mais elástico. Não foi diferente com os grupos econômicos que ganham dinheiro com transmissão de jogos ao vivo. A Rede Globo de Televisão é um caso que já merecia um artigo, desde antes. Mas já que não foi antes, que seja agora.
Recursos bem mais reduzidos que nos tempos da Copa do Mundo, ou ainda na rebarba das vantagens competitivas das Olimpíadas - onde chegou inclusive a me dar a sensação de que seria a dona do Centro Olímpico, quando construiu seu quartel general naquele lugar - a empresa unificou suas atividades, demitiu em larga escala, automatizou tudo que pode, ficou mais eficiente.
Passada essa primeira etapa, assistimos uma nova etapa nesse ano de 2018. De cara, estou eu na casa de um amigo, termina a novela, todos na sala, entra uma vinheta que causou espécie, tamanha beleza e grandiosidade. Afinal, do que se tratava? Seria uma partida internacional em Wembley, amistoso, perguntaram alguns. Ou será que não ficamos sabendo de algum jogo especial da Champions League? Teria o Campeonato Francês, por sorte na cesta de produtos do SporTV, tendo o protagonista Neymar na telinha? Nada disso amigos. Era a chamada para um jogo do Fluminense, no campo do América, na Baixada Fluminense, pelo Campeonato Carioca, contra o Madureira. Para a Globo, Pedro e Marcos Júnior foram transmutados em Messi e Suarez. E Xerém ganhou status de Barcelona.
A partir daquela vinheta, ficamos todos embasbacados. Aquela apresentação era desproporcional, muito ouro numa pílula. Parecia mesmo uma propaganda enganosa. A começar pela ocupação das arquibancadas. Não era possível imaginar mais de 500 pessoas naquela noite, numa cidade violenta, na Baixada, no horário noturno. Seria pedir pra virar mais um candidato a morto. Não dá pra ir. Começou as 19 horas e você não sai de lá antes das 21 horas.
Na segunda cena, lá vamos para o Chile. Contando com o time do Vasco da Gama na fase pré-Libertadores. E a Globo coloca seu time de narrador-comentarista-arbitragem no estúdio. Isso é reflexo da crise meus amigos. Porque o time do Vasco possui uma das maiores torcidas do país. O dinheiro está mais escasso, é preciso cortar custos. Essa racionalidade quem é só do ramo na condição de prestador de serviço não alcança. Há quem pense em montar equipes de trabalho que paguem para tal. Não acho impossível. Essa é bem a diferença dos estúdios de Hollywood para as Escolas de Samba brasileiras. A espontaneidade no ato de fazer. Não há erro em querer viajar para a lua e pagar pelos custos dessa viagem. Sendo um milionário ou tendo economizado a vida inteira para viver esse sonho, nada impede. Só não podemos chamar isso de modelo de negócios.
O que está acontecendo com a reestruturação executada pela maior empresa brasileira de televisão na sua pauta de transmissões esportivas é algo notável. Vale ser observado. O encurtamento das distâncias, a ideia de resgatar o valor das competições locais é um movimento em curso. Fazemos parte desse movimento, por razões afetivas, bem distintas das financeiras ou ecológicas. Sempre me senti melhor jogando no campo ao lado da minha casa, quando não nas quadras dos quintais. A disposição física, as possibilidades de humanização e a familiaridade não podem ser dispensadas por um craque da vida. Os deslocamentos necessários a um atleta de futebol que joga na Rússia torna aquele campeonato um dos piores do mundo para a qualidade de vida do jogador de futebol. Mas isso é outra história.

GOLEIRO GANHA JOGO, TÍTULO, PAR OU ÍMPAR...

Uma final no Pacaembu com trinta mil espectadores e mais de oitocentos mil reais de renda? Fique tranquilo, não é o Campeonato Carioca. É a Copinha. O novo fenômeno de interesse pelo futebol jogado pelos mais jovens, cujos melhores não veremos jogar nos gramados brasileiros. Me faz lembrar dos ensaios técnicos das Escolas de Samba no Sambódromo - a melhor coisa que aconteceu no mundo do carnaval, juntamente com os blocos de rusa - e a lotação esgotada para o povão, esse mesmo excluído do mundo gourmet do futebol profissional.
Para a final da Copinha, os antecedentes contam. E o Flamengo vinha como um rolo compressor, introduzindo uma novidade, com seus novos talentos mais destacados atuando simultaneamente no início do campeonato carioca. Divididos entre duas competições, lá iam os garotos. E um deles excedeu-se em brilho. Foi Vitor Gabriel. No time profissional, gol de almanaque, lhe rendeu minhas comparações com Dimitri Oberlin e Adriano dos bons tempos. Uma promessa de craque não é um craque. Só o tempo dirá se o jovem figurará na galeria de ídolos do futebol brasileiro ou mundial. É cedo, muito cedo. Mas não a ponto de não acusarmos a participação na semi-final que levou o Flamengo até a final. Dois gols e uma assistência num jogo em que seu time meteu três? Não há o que dizer. Só lamentar sua ausência na partida principal. Aliás, um Flamengo muito amarelado pela arbitragem. Um gesto de silêncio como método de comemoração é tido como provocação a torcida? Vaidagem arbitral...
Mas não fora apenas Vitor Gabriel a desfalcar o rubro-negro. Fala-se em cinco nomes da equipe titular. Outra vítima de sua própria sorte, o bom lateral Ramon. Como seria então essa partida, contra os paulistas, um time desfigurado? Certamente meio fora do padrão apresentado ao longo da competição. Agravada a situação pela maldição do gol no início. É sempre assim. A defesa vai sofrer. E sofreu. O São Paulo martelou, martelou, mas não marcou.
Atribuir o fracasso na busca do gol ao time tricolor é uma falha de caráter grave. Há um herói nesses casos. E o nome dele é Yago.
Já havia feito uma defesa decisiva ao final do jogo contra a Portuguesa. Lá ia deixando sua marca. Não que seja um goleiro pronto. Mas foi dado a ele o direito de brilhar, numa manhã onde tudo deu certo. Sorte não lhe faltou. Competência também não.
É difícil explicar, sem o manto da injustiça, as razões que levaram o São Paulo a perder o título para o Flamengo. No futebol, nem sempre quem joga melhor ganha. Ao time carioca, após o gol, e numa arena hostil, sem o seu melhor, cabia defender com unhas e dentes sua posição. Mesmo sem a melhor defesa, mas contando com um desejo de levar o que já estava na mão. A vitória veio cedo, o grupo ficou refém do resultado construído precocemente. Paciência, deu certo, goleiros ganham jogos, títulos e até mesmo par ou ímpar. Não custa lembrar que eles também perdem essas mesmas coisas. A mão de alface do Muralha e do seu reserva, levaram a Copa do Brasil pro outro lado. A sorte de hoje foi o azar de não ter goleiro em 2017, nas horas mais decisivas. Outras agremiações sofreram com isso, até terem um goleiro pra chamar de seu. Hoje a nação teve Yago. Por favor torcida, não peça para que seja titular na Libertadores. Assim queimam o filme de quem já teve seu dia de glória.

UM CARIOCA EM MOÇA BONITA

Vladimir Cavalcante / AREEVOL.TODAY

Vamos dizer que você estivesse passando no Rio de Janeiro justamente no dia mais quente do ano e a temperatura atingisse a sensação térmica de 45 graus. Nesse dia, um amigo lhe convidasse para dar uma pedalada de bicicleta entre Realengo e Bangu, para logo depois ir conhecer o estádio Moça Bonita, assistindo um jogo entre o Madureira e o Boavista.
Não sei quanto a sua saúde, nada posso afirmar quanto ao seu coração. Mas se você passasse por esse batismo de fogo, certamente estaria preparado para os próximos dias de carnaval, que aliás prometem ser mais quentes.
O jogo nessas circunstâncias, fica tecnicamente muito prejudicado. Não se pode exigir de um atleta em plena operação de sobrevivência que tenha cabeça para pensar o melhor lance. Não seria justo. A parte mais curiosa disso tudo é que os cabras em campo ao invés de se pouparem, acabam despendendo muita energia na disputa pelo domínio de meio de campo, faltando assim o gás para seguir até o ataque.
De um lado, um time de transição, rápido, que chegou perto várias vezes. Do outro, um toque de bola que exige uma compactação impossível de acontecer com aquela temperatura. Deu Boavista, merecidamente. O gramado esturricado e alto prejudicaram um pouco o espetáculo pela TV e para os jogadores, exigindo uma dinâmica que já não treinam. Mas a forte chuva do dia anterior deixou como presente a queda de luz intermitente que deixou a emissora encarregada impedida de transmitir a partida integralmente.
Nós, que também tínhamos a cobertura do brasileiro de basquete pela frente, do outro lado da cidade, também tivemos que sair pouco antes do fim, que já estava definido. Me perguntei a razão de um jogo cujo mando de campo era do Madureira não acontecer em Conselheiro Galvão. A resposta foi que a infraestrutura ao lado da estação de Guilherme da Silveira era melhor. Não foi isso que me pareceu, nos dois dias em que ali estive. Pelo menos não esse ano. Os cuidados de 2017, quando o Moça Bonita substituiu o insubstituível Maracanã em muitos jogos do Campeonato Carioca parecem ter desaparecido.
E por falar em cuidados, quero levantar uma lebre. Está na hora de tornarmos obrigatório a presença de bicicletários em todos os equipamentos esportivos da Cidade do Rio de Janeiro e do Estado do Rio de Janeiro. Pouco me importa se outros lugares do país não o façam. Mas aqui não. É dever dos nossos representantes, estimular o uso de transporte limpo e o incentivo começa nos lugares onde se pratica esporte. Acaba sendo um paradoxo que alguém com um puta carro de tração nas quatro rodas tenha seu lugar garantido e um cidadão comum não possa deixar sua bicicleta estacionada no lugar onde o esporte está rolando.
Que alguém abrace essa ação, e será responsável por bons frutos que dela nascerão.

REMINISCENTES DA FASE AUREA DE FORMAS DECADENTES

Tenho ouvido com o máximo de atenção e interesse, relatos de pessoas que viveram o privilégio de um Brasil relevante no futebol. Tempos do futebol do café, quando o café habitava como marca de propaganda a camisa da seleção brasileira.
Há diferenças abissais entre os motivos que levavam o torcedor aos estádios e o momento atual do esporte nacional. Pensei em fazer uma lista de nomes. Certamente o amigoIata Andersonpudesse me ajudar. Não duvido queMarcelo Barrospudesse muito bem fazer o mesmo. Seria uma lista extensa. Pessoas que acompanharam de perto o que no carnaval e escolas de samba chamamos de baluartes. Pois bem. A geração atual não disporá das mesmas facilidades para ter seus baluartes do futebol, nascidos no território tupiniquim. O máximo que veremos é um Vinícius Jr., um Vitor Gabriel, um Paulinho, entre tantos outros garotos, jogando na Copinha e depois partindo para algum negócio de expressão numérica internacional. A cifra vale mais que o futebol. Esse é o novo jogo.
Sem receber ainda a lista, ou sequer me ater a ela, começaria pelo Juca Kfouri. Dono de uma lucidez acima da média, viverá ressentido com a ausência daquilo que já não habita nossos gramados. É por isso que mesmo num domingo na Ilha do Governador, flamenguistas são contados como gatos pingados na Urubulândia. A atratividade daquilo que outrora seria uma preliminar com um time de garotos no Maracanã, foi substituída por uma nova atração, produzida pelos garotos de outrora, donos apenas da preliminar. Trata-se de uma mudança com consequências.
Na linha do tempo do futebol brasileiro, me parece que a fase áurea passou. E que teremos que nos acostumar com a ideia de conviver com as suas diferentes variações de decadência. O auge de nosso atletas ficará para ser servido na Europa. Findo o período de maior destaque, cumprida sua missão na geopolítica econômica, diga-se de passagem altamente concentrada, pode voltar pra cá, exibindo as chuteiras penduradas e se despedir com honra de nossos torcedores.
As formas decadentes que avistarmos por aqui poderão ter até cheiro de grife, vídeos no youtube para podermos assistir quão bons eram. Mas isso é uma enganação de proporções tão continentais quanto a fronteira do nosso país.
O rebuliço está posto. Não nos enganemos. Ao ligar a TV prepare-se. Porque ao mesmo tempo em que o PSG enfrenta o Lyon para disputar a liderança do campeonato francês, a mesma emissora vai transmitir o jogo do então líder Bangu encarando o Volta Redonda. As imagens são chocantes, pelo contraste que nada tem que ver com a temperatura. Pouca gente sabe, mas a grama fica mais verde no verão chuvoso das várzeas cariocas. Mas o campo do estádio de Moça Bonita estava com a grama esturricada. Perguntei a uma torcedora das antigas como era antes, e ela me respondeu que nunca havia visto o gramado daquele lugar tão maltratado. Foi então que o contraste se fez maior. A janela do abismo para o público já não deixava dúvidas. Enquanto na França, ingressos esgotados e uma festa repleta de pirotecnias acontecia e o ingresso a custos de 60 Euros era executado com grande antecedência, aqui a arquibancada vazia, para um jogo em horário impróprio. Um crime. Não posso esquecer da noção de ídolo do time, ou da presença de craques. Eles já não habitam entre nós.
A soma de tudo isso nos levará a aceitar, cada vez mais, que as crianças dessa nova geração, e mesmo adolescentes comoEnzo Framback, sejam torcedores roxos de Real Madri, Barcelona, Roma, Juventus, Manchester United. O ânimo para atravessar a rua e assistir um time local já não existe mais para o futebol. No extremo disso, já se vê nos velhos combates entre adversários históricos, como Brasil e Argentina, crianças brasileiras vestidas com camisa argentina e torcendo ardorosamente para que o Brasil perca. Reação natural, visto que consideram o técnico burro, não tem referências locais e acompanham a genialidade de Messi na TV por assinatura, internet ou no Game da FIFA.
A extinção por irrelevância é uma questão de tempo. Proporcionalmente falando, o NBA e todos os grandes times americanos com seus astros são tão mais atrativos que a possibilidade de uma liga como o NBB competir com a força econômica e de espetáculo que o basquete americano possui é nula. Idem para o futebol americano por aqui, que me perdoem os amigos praticantes, comoLucas GonçalveseTomás Gonçalves. O esvaziamento que assistimos no futebol segue continuadamente seu curso.
Como numa extinção de espécie, haverão ainda os que vivos contarão belas histórias, algumas já quase centenárias. Mas esse ciclo se foi e deixou em seu lugar apenas um certo saudosismo, fruto da dificuldade de aceitar uma outra realidade que se configura. Esses reminescentes que ainda habitam entre nós são valiosos, mas não terão capacidade para mudar o caminho de decadência daquilo que aceitamos como realidade. Para que o Brasil exerça sua vocação de Potência futebolística e esportiva precisamos urgentemente de outras fórmulas.

EIS UM TIME VELOZ

Em 2017 eu vi um cara jogando num time de menor expressão mundial, lá pelas bandas da Suíça. Um tal de Dimitri Oberlin me encheu os olhos, numa partida pelo Basel, onde interceptou um escanteio, fez um-dois com o meio de campo e finalmente chegou a outra área para marcar um golaço, que acusei como o melhor daquela rodada da Champions.
Vi jogadores no passado com essa mesma pegada. Certa vez um monstro, um tanque de guerra, que derrubava quem estivesse pela frente, como uma bola de boliche faz, por ocasião de um strike. O Adriano era assim. Sempre gostei de jogadores com a versatilidade e disposição para ocupar diferentes espaços e funções em campo. O que mais me impressionou, Ruud Gullit, pelo conjunto da obra, acabei conhecendo fortuitamente nas instalações de um hotel, recebendo uma bela modelo, digna de se tirar o chapéu. Cabra bom desses que faz valer o ingresso, acho que só nas categorias de base. Já não ficam mais por aqui.
A velocidade e a técnica. Juntos. O que mudou no futebol? Basicamente nada. Então o Vitor Gabriel vai lá e faz. Tem a Copinha, o Carioca 2018, o Varejão chegando, a reviravolta na novela das eleições do Vasco.
Esse janeiro já entregou o que prometia para 2018. Daqui por diante é bonificação. Nessa intensidade o titio não aguenta. Dentro da noite veloz, pego um livro e sigo os rastros dos cheiros. Com a Adriana Calcanhoto cantando Vambora, fica bem melhor.

QUEM CORRE É A BOLA

Zico e Romário são uma Dupla Perfeita

Vladimir Cavalcante / AREEVOL TODAY

Numa aula de futebol, os novos termos se confundem com os antigos. A capacidade do passe magistral a cada toque na bola? Lugar comum para o Galinho de Quintino, para quem o verdadeiro quintal da casa, o Maracanã. É ali que ele faz chover, sem ciscar. Ensina com a classe e clarividência de sempre, o dom da antevisão. A precisão no pé não deixa dúvidas. Não vi quem fizesse o que ele faz, da forma como continua fazendo. Aula de futebol. Aí vem aquele termo, deixe-me ver… Controle do Jogo? Ah, sei, aquilo que a gente chamava de bola de pé em pé, dentro da área adversária, e a defesa, tonta, coitada, sem saber pra onde ir.

ZICO E ROMÁRIO, A MAIOR DUPLA DE ATAQUE DE TODOS OS TEMPOS, DEPOIS DE PELÉ E COUTINHO

No imaginário do futebol, certas combinações são aceitáveis. Depois do que vi no Maracanã ontem, dessa que já conhecia de antes, não tenho dúvida de que a dupla Zico e Romário virou uma nova irmandade. A cada gol, uma alegria. A cada passe, um sorriso. Outros beneficiários? Claro que sim. A irmandade é aberta. Quem chegou na humildade levou a sua contraparte. Um Adriano? Claro que cabe. Um bom Marinho? Leva pra casa um ovinho pra abrir na Páscoa. Um Pet? Só se o novo técnico do Flamengo considerar escalar essa linha de quatro no lugar dos titulares atuais da grife YES, nós temos bananas.

Nesse mar de mediocridade e mesmice, nessa monotonia dos passes para os lados sem objetividade, ou a velocidade sem direção ou sentido, a preferência pela linha reta que leva ao gol, ou as curvas sinuosas que levam ao amor. Tanto faz. O que se viu no Maraca foi uma verdadeira declaração de amor. Que a Paz reine entre nós. Os exemplos ainda estão vivos, embora envelhecidos e misturados a uma escassez. Nesse salve-se quem puder, melhor ter boas referências. O evento de final de ano, faz lembrar os tempos em que crianças ainda acreditavam em Papai Noel.

PELÉ É SER CARIOCA

Conheço gente que ainda considera o futebol coisa de alienado. Vítimas de uma lobotomização idiotizante, há uma militância pernóstica, que se auto-investe com o manto da verdade para proferir suas babaquices colossais, monumentais, a estupidez persiste em nos atingir.
É desse ventre que nasce essa coisa escrota, que se volta contra gênios, como por exemplo pelé. Em qualquer lugar do mundo que tivesse nascido, seria canonizado. Aqui, como afirmam diversos amigos, é tratado como um qualquer. Mas não é. No rastro dessa falta completa de sensibilidade, uma luz no fim do túnel e alguns acontecimentos contra essa maré de podridão.
Foi o caso que escrevi sobre Zico e sua imagem indissociável a do Maracanã, no que diz respeito a grandiosidade do templo brasileiro do futebol. Nada mais importante que esse estádio, vilipendiado pelas falcatruas da Odebrecht e do títere de meia-tigela que assumiu a farra com guardanapos para ir parar em Bangu 1.
Salva-se assim o Rio de Janeiro, nesses últimos meses, abençoado por Deus em duas geniais sacadas. O jogo do Zico, só para lembrar aos garotos que quase nada aprendem sobre história, mas opinam sobre tudo, inclusive sobre se ao Flamengo cabe mais um estádio na cidade do Rio.
Coisa de lobistas do setor de construção, infiltrados no meio empresarial, que dirigem os torcedores para o pior caminho. Esses pobres coitados, que nada sabem sobre demandas acerca dos espetáculos, sobre logística de acesso, ou ainda sobre a nova Economia do Compartilhamento, mas que pegam UBER. São apenas ovelhas seguidoras da moda.
O verdadeiro carioca aplaudirá Pelé, símbolo maior do futebol brasileiro. O carioca de raiz, assistirá os mais de mil gols de Pelé e parará com essa babaquice de copiar a melodia da letra que os argentinos trouxeram para homenagear Maradona. O carioca pode mais. Não afeta a esse lugar, essencialmente de todos, o sotaque paulista do Rei. Porque cariocas são a corte Real do país, no que diz respeito a cultura, a concentração intelectual crítica e a originalidade.
O carioca é um estado de espírito, e quem incorporar esse estado pode falar inglês, francês, alemão, árabe, russo, hebraico ou até finlandês. Ter Pelé como patrono do Campeonato Carioca de 2018 nos obriga a tirar imediatamente a carteira de imprensa, para escrever desde o 1o dia do ano os capítulos de uma história que ficará marcada em nossa época.
Obrigado Pelé, porque ser Pelé é ser também carioca.

A IDADE EXEMPLAR

A IDADE EXEMPLAR

Vladimir Cavalcante

Digamos que as coisas tenham ficado mais quentes do que o desejável para o nível de civilidade que o futebol moderno exige. Digamos ainda que os estádios e o espetáculo esportivo envolvido implique em concessões, que se admita a possibilidade da presença de idosos e crianças, o exercício do direito da gratuidade, o acesso de deficientes e especiais.
Esse grupo de amigas inseparáveis são um exemplo, a idade exemplar existe. Mirem-se no exemplo dessas mulheres. Para mim, é o que basta. Uma imagem vale mais do que mil palavras. E pra não dizer que a fotografia é tendenciosa, já aviso que veio logo depois das tensões, da derrota rubro-negra. Quem sabe vencer, vence até quando perde. O vencedor é um espírito em essência.

QUEM DISSE QUE LOBO NÃO COME LOBO

Rezava uma lenda que lobos jamais comeriam outros lobos. O provérbio de autor desconhecido, eternizado por um gigante do mundo do radialismo esportivo, "Lobo não come Lobo" - Fla x Flu é na rádio Globo - foi jogado por terra nessa véspera de finados. Além dele, muitas realidades atávicas também se deram por vencidas. Vamos por partes.

O mais importante a saber é que o segundo jogo da "SULA", de importância internacional, se tratava de um clássico regional. E acabou fazendo valer sua importância histórica. É certo que nos últimos 10 anos não vimos nada parecido com o que aconteceu, na noite que na minha opinião, fez ressuscitar o anima do Maraca.

Não que as circunstâncias ou o plantel ou a qualidade do espetáculo tenha atingido seu melhor nível. Nada disso. Estou falando da alma do futebol, que se fez presente. Um esporte cujo fundamento primário é a emoção, dessa vez encontrou vozes no gramado que seguiram cegamente esse clamor, esquecendo-se de instruções táticas ou até mesmo da situação do placar em que se encontravam as duas equipes em diferentes momentos da partida. Senão vejamos.

Lá estava o Flamengo, com 3 minutos de jogo, dono da vantagem do empate, com sua ala esquerda defensiva arreganhada, da intermediária do Flu até a sua área. Um corredor que me lembrou os tempos em que treinava sozinho no gramado, correndo e driblando adversários imaginários, a partir do meio de campo, até chegar próximo a balize adversária e chutar com toda força. Coisa de gente fominha. Não encontrei aos três minutos de partida nem o Everton, muito menos o Trauco. Mas lá estava Lucas, que sorrateiramente avançou pelo corredor daquela clamorosa falha de um time que detinha a vantagem do empate. Lá foi o pobre do Juan, fazer cobertura de lateral, mais uma vez. E isso porque os times jogam com dois volantes.

A loucura estava só começando. E os erros dela advindos também. Havia um clima de agressividade acima do normal. O gol desequilibrou quem achava que ia sentar na vantagem e jogar contra um time montado por Abel mais aberto. Ao contrário, o melhor Fluminense jogou no 1o tempo, inversamente ao que aconteceu no partida anterior. Acontece que na ausência de um futebol mais técnico, substituído por uma mistura de pelada com UFC e bumba meu boi, as bolas paradas ganham destaque. Engraçado ter que dizer isso, mas quando joguei bola elas não eram a parte mais importante. Hoje as chances de gol decorrem dela, por falta de talento para algo além de jogadas treinadas com as faltas e escanteios. Cansei de contar o número de chances dadas ao outro, sem necessidade. E foi assim que fizeram, justamente na meia lua da grande área. Se o batedor não fizesse, seria execrado. Dali, pedia ao goleiro para escolher com qual perna bater. A falta central admite o gol em qualquer lado. E Diego não desperdiçou. O erro foi fazer a falta. Reconquistada a vantagem, o jogo entrou em ritmo de adrenalínico-frenético.

Olhando para aquele parque de gladiadores, era necessário atualizar a frase símbolo do clássico. Afinal, quem foi que disse que lobo não come lobo. Desse Fla x Flu em diante, a máxima seria substituída por esta outra. E para provar a tese, lá estavam os arranhões no abdômen do camisa 10 do time rubro-negro, provocados pelas travas da chuteira de um atleta destemperado, ali, pisando propositalmente o companheiro de sindicato, caído ao chão. Como se não bastasse, lá foram outros dois, se jurando para acertar as contas do lado de fora do gramado, depois que a partida terminasse. Era quase um convite as tão criticadas torcidas organizadas e aos hoolingans.

O que estava em jogo? A inadmissibilidade de levar pra casa mais um resultado negativo pra casa, o que somaria ao todo 8 em apenas um ano. O Fluminense deve ter levado aos jogadores essa estatística. Uma demonstração clara das mudanças que o futebol sofreu nessas últimas décadas. Lá nos primórdios, esses times só se enfrentavam nas competições regionais. Depois vieram as nacionais. Agora são as internacionais. O peso financeiro e de valor para as torcidas e patrocinadores do Campeonato Carioca, por exemplo, é baixíssimo. Já esse confronto com repercussão internacional, entrou para a história dos dois times. A coisa é tão feia por esse lado, que ninguém nem se lembra que o Flamengo foi campeão carioca esse ano! Valor tende a zero, na cabeça do novo torcedor.

E isso fez ferver. Dois times muito pressionados, pela nova maneira como as massas se manifestam. O povo não quer fairplay. Pede raça e ela acaba trazendo violência e uma adrenalina incompatível com um jogo de futebol realizado em pleno século XXI. Foi esse o clima que vivemos nesse lapso de tempo, e que produziu uma atmosfera que a muito não se via. Ali não havia nenhum atleta com a mesma importância para o futebol brasileiro de um Romário ou de um Renato, no dia do gol de barriga que calou a nação rubro-negra. Mas havia o ingrediente mágico, a emoção em nível máximo, que contaminou todos os envolvidos.

Tanto é que após o empate, o Flamengo em lugar de se manter controlando o jogo, se lançou no perde e ganha de uma trocação de baixo nível técnico e cedeu um escanteio, a meu ver também desnecessário. Como já disse, bola parada, falha de marcação, gol tricolor. Com uma lacuna no setor ofensivo, e jogada manjadas com cruzamentos buscando um centro-avante limitado, pouco ou nada havia a ser feito. Então vem mais uma bola parada, sempre bem executada pelo Gustavo Scarpa e mais um gol, daquele que até ali estava candidato a assumir o papel de herói da classificação, Renato Chaves. O pobre William Arão viria publicamente admitir logo depois ter falhado.

O que era possível esperar de um ataque inoperante, de um time que agora teria que tirar pelo menos dois gols de diferença em 45 minutos, sem ter apresentado um grande futebol na primeira etapa? Nada. Como estava não podia continuar. Nunca foi possível entender porque os técnicos que por ali passaram, mantiveram Juan e Vinícius Jr. como reservas de jogadores limitados como Paquetá, Vizeu e Rafael Vaz. Só mesmo uma situação insustentável para fazer Rueda se mexer e tomar providencias mais drásticas.

Tirar o ala Trauco, fraquíssimo defensivamente e pouco ativo no apoio ao ataque, deslocar o limitado e prestativo Everton para a função que já exerceu com melhor rendimento e lançar o extra-série Vinícius Jr. deu uma nova dinâmica ao jogo. Nenhuma outra variável vai superar a presença de talentos em campo. E o time respondeu. Tudo melhorou para o time da Gávea, e os gols foram saindo naturalmente. Houve sorte também. As contusões favoreceram o Flamengo, porque deram mais certo as substituições.

Ao ficarem encurralados e dependendo de ligações diretas para o ataque, na esperança de que o Ceifador fizesse alguma coisa, deram a obviedade das cartas marcadas para a defesa com Rodolfo e Vaz consolidar o comando do jogo.

Essa partida poderia ter acabado num 4 x 1, com melhor sorte e visão num momento decisivo e único para o Flu. Mas também poderia ter chegado a um 4 x 3 ou 5 x 3 para o Flamengo, no gol que não se pode perder, não feito pelo Diego, numa bola com açúcar, dessas que só se mete pra dentro, ou na entrada interrompida por falta por trás no fulminante garoto Júnior. Nada parecia tão resolvido assim. Se houve um protagonista, esse foi o cara que selou o empate com um gol quase que meio sem querer, mas com muita vontade, paixão e garra. É provável que Arão tenha incorporado a força mística do número 5 da camisa e se tornado "O NOVO MAESTRO". Pelo menos, interinamente.